O ESPECTRO NA ESCOLA

Ler Contos de Terror

Aparição, fantasma, O Espectro na Escola de Francisco Farias Jr.

"A fúria impetuosa da rajada que entrava quase nos elevou do solo. Era, na verdade, uma noite tempestuosa, embora asperamente bela, uma noite estranhamente singular, no seu terror e na sua beleza."
Edgar Allan Poe


Segundo o que são ensinados nas aulas de física e química, tudo que vemos ou sentimos é formado por matéria. Temos recordações agradáveis quando inspiramos o aroma da areia molhada pela chuva de uma grande tempestade misturada com o odor de maresia no litoral. Este cheiro chega ao nariz empurrado pelos vendavais quentes que vem do noroeste seguindo em direção ao oceano, onde alcançam o equilíbrio. A sensação de um tenebroso temporal na praia é percebida pelo fato do oxigênio, dióxido de carbono e outros gases empurrarem moléculas aromáticas contra nosso corpo através do ar em movimento. Entretanto tal odor agradável e ao mesmo tempo assustador não pode ser registrado por nenhum aparelho eletrônico. Esta é uma sensação que só permaneça registrados em nossas mentes. Mas quando a matéria deixa de existir ficando apenas uma energia, como um potente relâmpago, será que pode ser fotografado? Isto é visto como uma inversão incomoda, uma vez que não podemos registrar visualmente certas matérias mas uma grande energia acumulada vira linda imagem nas páginas dos livros de ciência. E o acumulo de energia de um espírito materializado também pode ser fotografado? Pois foi exatamente o que aconteceu num sábado de outono dentro de uma escola perto da praia.

Um grupo com cinco jovens, que também estudavam física e química, integrantes da fanfarra que se preparavam para a manutenção dos instrumentos do colégio e planejar a convocação de todos os alunos para integrarem a banda que deveria estar afinada até 7 de Setembro. Eles aguardavam a caseira abrir o portão e discutiam uma escala de horários para a divulgação durante os dias de aulas. Antônio, sujeito brincalhão, como todo gordo era muito simpático; ele já tinha concluído o ensino médio, por isto era um experiente líder das liras. Ali também estavam às irmãs Paula e Vanessa, a primeira coreografa porta-estandarte e a outra, que cursava o primeiro ano, namorava Diego. O baterista Diego tocava no grupo de louvor de sua igreja, logo não poderia ensaiar aos domingos e aproveitava aquele dia de sábado para namorar mais do que treinar. Já o último do grupo chamava-se Sérgio, o mais estudioso e o que sofria com as brincadeiras de Antônio.

Seguiram então os cinco mais a caseira pelo enorme corredor onde dava acesso as salas de aulas. O som dos seus diálogos se propagavam pela excelente acústica da escola vazia iluminada apenas em parte pela claridade do dia que atravessava os vidros encardidos das janelas. Na metade do caminho havia uma saída que dava para um modesto pátio sujo por folhas secas que desprendiam de uma enorme árvore no centro; após atravessarem o jardim e a quadra ambos entraram em outro anexo. Na segunda construção encontrava-se – na parte térrea – banheiro dos alunos, depósito de limpeza, uma escadaria protegida por grades, refeitório e a cozinha. O cadeado que dava para os lances de escada foi destrancado pela moradora que depois partiu para sua casa no outro lado do terreno. Além da biblioteca, no segundo piso também havia um pequeno escritório, mais parecido com um depósito empoeirado, lugar onde o Grêmio fazia suas reuniões, mantinha uma mesa de ping-pong montada e estavam guardados os instrumentos da fanfarra.

A formação daquele grupo era bem recente, eles tinham pouco entrosamento mas se completavam, como várias engrenagens trabalhando de maneira sincronizada, agindo em conjunto faziam a máquina funcionar. Eles já se conheciam do 7 de Setembro do ano anterior onde mantiveram contato para uma mobilização concretizada agora. Há uma outra definição para aqueles jovens, pois eles não eram peças de uma engrenagem, muito menos uma máquina ou algo mecânico. A complexidade dos sentimentos aflorados com características marcante daquelas pessoas mostrava que eles formavam um único corpo com várias cabeças. Antônio contribui para o corpo com seu espírito de mobilização, auxiliado por sua poderosa voz persuasiva; Diego era o mais esperançoso com uma bagagem religiosa, certamente manteria a perseverança nos ensaios; já Sérgio tinha a incumbência em registrar todos os treinamentos com fotografias para publicar num diário da internet; a atraente Paula é dedicada e muito disciplinada; por outro lado Vanessa era totalmente o oposto da irmã nos sentimentos e só estava ali para permanecer próxima do namorado pois morria de ciúmes dele. Pelo menos era esta a impressão inicial que um teria do outro.

Ao entrarem na sala Diego pegou uma das raquetes e bolinha – deixando a silhueta dos objetos retirados mais limpo e esverdeado que o restante da mesa – desafiando Sérgio para uma partida. O jovem nerd aceitou como uma afronta porque daquele era o único esporte que praticava bem, dando um sorriso sarcástico ao pegar a outra raquete. Enquanto os dois rapazes se gladiavam, Antônio e as duas moças iam atrás de panos úmidos para limpar os instrumentos empoeirados.

Quando todas as caixas e tambores estavam limpos, Antônio ficou revoltado pois os outros ainda jogavam na mesa e ordenou enraivecido:

– Aêh!, vocês não vão ajudar? – jogando um dos panos imundos em Sérgio e completando – Limpa esta mesa para colocarmos as liras.

O outro sentiu o tecido bater em suas costas e ficar pendurado no ombro, manchando sua camiseta branca. Ao notar a camisa encardida o garoto de imediato largou a raquete e retirou a roupa para limpá-la enquanto protestava:

– Você é ridículo, olha o que fez com minha camiseta! Esta mancha não vai sair mais!

– Ridículo são vocês dois que brincam em vez de trabalhar. – aponta para a mochila do jovem nerd e continua – Trouxe a máquina fotográfica para ficar de enfeite, não tirou nenhuma foto ainda.

Sérgio retira o aparelho da mochila enquanto exclama:

– A primeira foto que vou tirar então será da minha camiseta manchada por um babaca muito do sem graça!

Vanessa então aproxima-se de Diego, em tom intimidador ameaça Antônio:

– O fato deles não nos ajudarem não é motivo para você maltratá-los. – e se requebrando com uma das mãos na cintura completa – Talvez você seja um ridículo mesmo e se continuar assim vai trabalhar sozinho.

O clima na sala esfriou de tal forma que um silêncio propagou, sem nenhuma palavra agora eles trabalhavam cada um no seu canto. Quando Antônio não suportou mais e resolveu descer, por pouco tempo, porque em menos de três minutos ele já estava de volta pedindo:

– Alguém aí tem papel higiênico? Os banheiros estão sem.

Ambos riram com o pedido do gordo chato.

– Vai no banheiro dos professores, lá é mais limpo e deve ter papel. Falou Paula sorrindo.

Após Antônio sair, Vanessa maliciosamente pega a máquina fotográfico de Sérgio e fala:

– Já teremos a primeira foto de nossos afazeres com a seguinte legenda: “Gordão trabalhando na louça do vaso sanitário”. Saindo atrás de Antônio no banheiro.

Os outros três permaneceram limpando as liras por um tempo, quando um grito de horror feminino ecoou por toda escola e ambos precipitarem-se para ver o quê estava acontecendo. Encontraram Vanessa nervosamente agachada no canto da parede do corredor e Antônio tentando erguê-la enquanto a moça trêmula gaguejava:

– Eu vi, eu vi! Es... estava lá! Eu vi!!!

Calma Vanessa, – tranquilizava Diego enquanto aproxima da namorada e questiona – o quê você viu?

Uma... uma mulher de vestido preto. Era um fantasma, um fantasma! Eu vi!

Sérgio então seguiu para o local onde a moça apontava à procura de alguém, alegando:

– Vanessa, não ninguém aqui.

– Eu vi Sérgio! Eu tirei foto dele com sua máquina. Olha, olha, é verdade. Eu vi!

Levaram Vanessa para o escritório dos instrumentos e, com semblantes perturbador, viram a fotografia da aparição de vestido preto que a moça registrou. Todos ficaram aterrorizados com a imagem que passava de mão em mão; decidido não permanecer nem mais um segundo naquela escola. Chamaram a caseira explicando que iam comer alguma coisa e retornavam. Mentira, pois eles seguiram em direção a praia. Todos se entreolhavam como cúmplices, intrigados com o mistério e riam nervosamente:

– Deixa eu ver a foto de novo? – Pediu Diego para Sérgio.

– A máquina fotográfica está com a Vanessa.

– Comigo não, cadê a máquina gordão?

– Não está comigo, tá com você Paula?

– Não! Sérgio você não deixou na escola?

– Nossa, ficou sobre a mesa de ping-pong. Vamos buscar? – disse Sérgio colocando a mão na cabeça.

Ninguém quis se prontificar para acompanhar Sérgio e ainda o desafiaram a buscá-la, pois ele era o mais cético de todos.

– Sérgio, você tem que ir buscar o seu aparelho, temos que colocar na internet. Vai lá buscar sua máquina. Pediu Vanessa abraçada ao namorado.

Sérgio deu sete passos em direção à escola, porém recuou alegando temerosamente:

– Não quero ir sozinho, tenho medo desse tipo de coisa.

Os cinco caminharam pela calçada da orla para depois virarem na direção da avenida e partindo cada um para sua casa. Ficou a promessa de na próxima segunda-feira pegarem a câmera digital, quando a escola estaria cheia de alunos.

Sérgio chegou na sua casa e, em pouco tempo, já estava na cama deitado. Não consegui dormir apenas pensando na imagem da mulher impressas na máquina fotográfica, infelizmente seu equipamento não estava ali para ser analisado no computador. Foi quando teve a ideia de buscar pela internet por imagens semelhantes, desta forma desvendaria o mistério ou talvez desmascararia Vanessa. Ele sentou-se na frente do computador, digitando as palavras chaves para a pesquisa. Primeiro digitou “fantasma na escola”, não havia nenhuma fotografia idêntica sequer; “espíritos dentro da escola”; “Ghost in school”; pesquisou por vídeos e nada. Após vários minutos de buscas e quase desistindo dedilhou no teclado: “Espectro na Escola” em seguida Enter... Lá estava a imagem idêntica, sem nenhuma modificação ampliada no monitor. Algo muito estranho era que na fotografia também estava o corredor de sua escola sem nenhuma montagem. O jovem inclinou-se para olhar cada detalhe, sem sinais de manipulação. Cenário, objetos, luzes, sobras, observava o contorno da roupa negra e por último olhou o rosto. Notou que havia um pouco de contraste que assemelhava as afeições dos olhos e de um nariz; ele então colou o rosto na tela e repentinamente a cabeça daquele espectro mexeu.

Sérgio deu um pulo para trás... Ainda sentado na cadeira esfregou os olhos, percebendo que era uma ilusão de suas retinas; mas quem colocou a foto de sua escola na internet? Ele olhou novamente para o monitor e agora estava só o corredor vazio, sem ninguém na gravura. Como? O que estava acontecendo? Quando as paredes do quarto começaram a sacudir produzindo um barulho muito grave, semelhante a trovões de uma poderosa onda batendo no rochedo. Todas as estruturas de bloco e reboco das paredes desfragmentaram em terra e Sérgio se viu, com todas as mobílias do cômodo, ao ar livre. Era algo impossível naquela noite, mas Sérgio estava junto com sua cama, guarda-roupa, tapete e cadeira na areia da praia. Ele olhou em volta notando estar sozinho, sob uma espeça camada de nuvens no céu. Era uma eminente tempestade que deixava o ambiente ainda mais em trevas, dava para ele ver os clarões dos relâmpagos e ouvir a confusão de sons das ondas misturada aos estrondos dos trovões.

O nerd olhou para um flash que refletiu na água e lá estava flutuando o espírito que desaparecera do computador lhe observando. Era realmente algo assustador aquela aparição que estendia uma das mãos para o garoto como se estivesse pedindo algo. Sérgio notou a máquina fotográfica estava no seu colo, rapidamente ele conectou o equipamento ao computador para tentar transferir a imagem do espectro novamente para a internet. Ao olhar o espírito da mulher que flutuava sobre a margem das águas viu que ela ainda estava com o braço estendido, só que agora fazia um aceno negativo com a cabeça. Um gigantesco raio atravessou o monitor fazendo saltar várias fagulhas em curto, atingindo seu peito, queimando todo seu corpo que tremia numa convulsão enrijecida.

Ele permaneceu estático sobre a cama com os olhos voltados para o teto, não estava paralisado, poderia se mexer a hora que bem entendesse, mas não queria porque tinha com medo. Seu peito doía só pelo fato do seu coração estar batendo; como se não houvesse espaço suficiente para os músculos cardíacos se movimentarem, machucando seu pulmão a cada palpitação, fazendo com que tudo fosse saltar do seu tórax. A visão do sonho circulava em seus olhos, semelhante uma projeção nas paredes tomadas pela falta de luz. Sérgio buscava o controle de sua realidade, tentava acalmar-se respirando de maneira bem calma. As visões então dissiparam gradativamente como nuvens após o temporal, seus ouvidos se abriram e ele percebia sair daquele pesadelo onde retornava ao quarto. Alguns sussurros femininos, bem lá longe, os guiaram no seu autocontrole; eram diálogos que ouviam em volume baixo e abafado que gradativamente ficavam nítidos até perceber que eram sua mãe no outro quarto conversando com seu pai que se preparava para trabalhar. Sérgio não levantou, muito menos ascendeu à luz para não incomodar sua família. Permaneceu deitado, acordado até a mulher se calar, seu pai sair e o clarear o dia.

O domingo passou para o jovem nerd de maneira congelada. Sem ânimo algum deixou que nada acontecesse. Apenas esperou que aquele dia fosse embora o mais rápido possível. Aguardava as horas passarem, afundado no sofá, olhando sua irmã mais nova apertar os botões do controle remoto e trocar os canais de desenho. Ele estava apático, com poucos pensamentos para processar; tinha esquecido de escovar os dentes, comeu mal, falou pouco à mesa, não foi tomar banho, apenas permaneceu estático olhando para a irmãzinha trocar os canais.

Sua mãe já estava servindo o jantar quando reparou que havia algo de errado com o rapaz:

– Porque você passou o dia tão murchinho, Sérgio? – a mulher questionou, tocando com as mãos na testa e pescoço do jovem para examiná-lo, concluindo em seguida – Está se sentido mal?

– Nada não, apenas estou meio pra baixo com um acontecimento inesperado. Tive até um pesadelo nesta manhã.

– Estão mexendo com você novamente na escola? – Perguntou a mulher, recordando alguns anos antes, quando os garotos da oitava série o humilhavam pelo fato dele ser o “Queridinho da Professora”; continuando – Eu posso ir lá e conversar com a diretora.

– Eu não gostaria de falar sobre isto por enquanto. Só não é nada grave.

– Sérgio, eu me preocupo com você. Principalmente quando faz mistérios, além de tudo seu pai...

O garoto interrompeu o princípio de discurso porque aquele não era o momento para ele ouvir uma palestra e tentou encerrar o assunto falando de forma impaciente:

– Não é nada de grave mãe e ninguém está me provocando. O que sinto são coisas estranha que ainda não posso entender, a senhora já deve ter passado por isto quando era mais jovem.

– Deve ser porque você está perdendo “o controle”. – iniciando, mesmo assim a palestra – A gente sempre planeja tudo com antecipação para nossas vidas fluir de maneira harmoniosa, porém isto nos trás uma rotina que desanima. Às vezes tirar proveito das situações inesperadas nos faz evoluir e torna nossas vidas mais relevantes, nos traz sensações imprevistas que podem ser felizes ou tristes porém emocionantes.

– Entendo... Sérgio disse as últimas palavras daquele chato domingo, indo para seu quarto.

Ele teve o mesmo pesadelo da noite anterior, a praia deserta e escura encoberta pelo temporal, os raios, trovões, ondas, sua máquina fotográfica e a aparição de vestido preto. O fantasma também estava flutuando a beira do mar, com uma das mãos estendidas pedindo algo. Sérgio, sentado na cadeira e com os pés na areia, com a câmera digital no colo desta vez tentou mudar o desfecho do sonho pegando o equipamento para mostrar à assombração. O jovem notou que agora ela acenava positivamente a cabeça. Ele se coloca de pé e lança com toda força do seu braço a máquina fotográfica ao encontro do fantasma. Na metade da trajetória do aparelho que voava na direção da aparição que o mesmo relâmpago de ontem cortou o céu, destruindo a máquina que continha o registro fotográfico. A energia desprendida do impacto foi tão intensa que um clarão ofuscou sua visão; seguida de um estrondo. Quando Sérgio conseguiu abrir os olhos, já tinha amanhecido e estava na hora de se arrumar para a escola.

Ele chegou à cozinha, já com o uniforme e mochila nas costas; o café estava pronto na garrafa térmica junto com o pão de forma e queijo – sua mãe fizera mais cedo para seu pai, que já tinha saído para o trabalho. O jovem então comeu rapidamente, enquanto apenas ouvia a televisão que sua mãe na sala ligou. No telejornal da manhã mostra os acontecimentos do final da semana com assaltos, trânsito, espetáculos teatrais e agora mostrava que o dia permaneceria encoberto com algumas pancadas de chuva durante o dia. Sérgio saiu para a escola, com um plano traçado assim que recuperasse sua câmera digital; passou pela sala se despedindo da mulher acomodada no sofá que o alertou:

– Tchau! Pegou o guarda-chuva? Olha que vai chover!

Assim que entrou no colégio repleto por adolescentes já estava perto de tocar o sinal. Ele seguiu em direção a sala do Grêmio, onde esqueceu o aparelho e quando passou pelo pátio cruzou com o casal Vanessa e Diego. Eles estavam com muita pressa e nem lhe cumprimentaram. O nerd chegou às escadarias e notou que a caseira fechava as grades que davam para as escadas. Sérgio pediu para ela esperar mais um pouco porque queria pegar um aparelho que esquecera no último sábado. A mulher então respondeu:

– É a máquina fotográfica? Um casal acabou de pegar, mocinha disse que era dela.

Sérgio correu pelo pátio, esquivando-se dos outros alunos que estavam em seu caminho para tentar alcançar os dois. Correu pelo corredor ouvindo os gritos de advertência da inspetora e, ao chegar no portão de saída, se chocou com Paula.

– Viu para onde foi sua irmã? Ela está com minha máquina com a fotografia.

– Ela acabou de passar por mim. Estava com Diego e seguiram em direção a praia.

Neste instante Antônio aparece para divulgar os ensaios da fanfarra como combinado:

– Por favor Paula, nós precisamos apagar aquela fotografia! Disse Sérgio nervosamente.

– Mas o quê está se passando com você?

– Venham comigo que te explico! Disse Sérgio puxou os dois pelo braço.

Chegaram na praia ambos sem fôlego pela corrida, Antônio ficara um pouco para trás. Pararam para respirar, avistando o casal sentado num banco mexendo a câmera distraidamente. Sérgio seguiu na direção dos dois, porém Vanessa percebeu a aproximação do nerd, pegou tudo que era seu do banco e fugiu pela areia.

Aquela eram as primeiras horas da manhã, havia um denso teto de nuvens escuras no céu que deixava o dia mais escuro, anunciando a chuva que chegaria em instantes. O vento soprava em direção do mar e Vanessa corria com dificuldades pela areia fofa que levantava a cada pisada. Sérgio tentou alcançá-la caminhando, ele observou que a moça ganhava distância, mas não se desesperou, pois o vento a empurrava para a água. Em pouco tempo ela teria que parar. Antes mesmo do esperado, Vanessa tropeçou na areia e caiu de cara no chão, se sujando toda. Neste mesmo instante um trovão estrondoso anunciou a tormenta.

– Afaste de mim! – gritou Vanessa cuspindo areia que continuou – Eu só quero pegar a foto que tirei, é meu direito, foi eu que fotografei!

– Vanessa, estamos lidando com forças ocultas, – disse Sérgio de maneira calma enquanto aproximava da garota que arrancava suas sandálias e tentava levantar, mas era atrapalhada pela areia acolchoada e ventos fortes. Antônio, Diego e Paula também chegavam atrás do jovem nerd e outro trovão soou mais perto deles. A atmosfera estava assustadoramente pesada dando uma sensação de agonia em Sérgio que continuou sua frase – por favor me escuta, temos que apagar esta fotografia.

Vanessa apoiou uma das mãos no chão e com a outra, segurando a câmera eletrônica, tentava se equilibra. Ela levantou-se ainda cambaleante, ergueu os braços, tentando colocar seu corpo de forma ereta quando gritou:

– Esta foto é minha, eu fotografei! Todos têm que saber, tenho que publicar na internet... Vanessa não conseguiu terminar pois com os braços erguidos se transformou num para raio, um relâmpago entrou pela sua mão fechada e explodiu em seu corpo.

Duas semanas passaram. Lá estavam na escola mãe e a irmã da morta, a rotina de ambas haviam mudado após a tragédia. A médica legista confortou as duas ao dizer que a morte da menina foi instantânea, porém no enterro a defunta apresentava uma aparência macabra com uma expressão de horror no rosto, dentes trincados e a mão com pedaços derretidos da máquina presa no tecido da pele carbonizada. Elas tentavam agora retornar a normalidade. Como aquele dia que estava limpo e claro, com o Sol radiante e suave brisa que movimentava as folhas dos coqueiros. Na praia agora havia alguns turistas contemplado a paisagem, banhavam-se nas águas mornas do mar, esportista que corriam pela orla desviando dos casais de namorados que tomavam sorvete nos quiosques.

Paula chegou na escola com a mãe para pedir transferência, pois não tinha mais condições de se concentrar nos estudos sem a presença da irmã que sempre estivera lá. Talvez numa escola nova ela pudesse concluir seus estudos. Ambas aguardavam o atendimento do lado de fora da secretaria no largo corredor, quando Paula arregalou os olhos para o teto, apontando naquela direção grita:

– Mãe ali, está gravado!!! – ela mostrava uma das câmeras de monitoramento enquanto repetia – Está gravado mãe, a senhora vai ver que não estou mentindo! Temos que ver as gravações, tá gravado!!!

A moça tremia e desesperadamente apontava para a câmera pendurada no teto, as lágrimas já brotava dos olhos de Paula e as portas das salas de aula eram abertas por alunos que começaram sair para verem de onde vinham os gritos. Sua mãe tentou acalmá-la dizendo:

– Calma filha, eu acredito em você. Nós vamos ver as gravações. – voltando para uma das atendentes da secretaria continuou – Cadê a diretora? Ela tem que nos mostrar as gravações...

Foi no monitor de vídeo na sala da diretora que ambas viram perplexas as imagens daquele fatídico sábado.

– Minha Nossa Senhora! Exclamou a diretora com a mão segurando o queixo caído, enquanto recuava para tentar afastar-se da imagem.

O vídeo mostrava uma mulher de vestido preto flutuando no corredor, quando no canto inferior aparecia Vanessa apontando a máquina fotográfica para o fantasma que balançava negativamente a cabeça; em seguida um clarão ocupa toda a tela que fica esbranquiçada, retornando a normalidade gradativamente. Vanessa agora estava agachada num canto da parede enquanto o corpo gordo de Antônio se aproximava para acudi-la.

– Quero uma cópia deste vídeo. Falou a mãe para a diretora de forma assustadora enquanto abraçava a filha sobrevivente.

Mãe e filha se entreolham onde lá fora, naquele lindo céu surgiu uma pequena nuvem negra.

1 comentários:

Muito massa.essa história!

Postar um comentário

  • RSS
  • Flickr
  • Facebook
  • Google +
  • Twitter
  • YouTube

Pesquisar