• MACHADO DE ASSIS

    Não é a toa que ele também era chamado de ''O Bruxo de Cosmo Velho''! Leia os textos que envolvem mistério, misticismo e suspense deste homem que estava a frente de seu tempo.

  • O QUARTO VERMELHO

    Risquei um fósforo em movimento, passando pelos castiçais da cornija na lareira. Minhas mãos tremiam tanto que por duas vezes errei a lixa na lateral da caixa. Assim como o manto da escuridão que me cobre mais uma vez, duas velas na parte remota da janela foram eclipsadas [...]

  • O TÚMULO (LA TOMBE)

    Nós forjamos estátuas com impressões preservadas, guardamos os moldes que dão forma e repetem os mesmos objetos, repetimos as mesmas cores e contornos. Porém esse corpo e esse rosto, nunca reaparecem novamente na terra [...]

  • CHICKAMAUGA

    Eles eram homens. Rastejando em suas mãos e joelhos. Alguns usavam apenas suas mãos, arrastando as pernas. Outros utilizavam somente seus joelhos, com os braços pendurados ociosamente ao lado[...]

Um Cavaleiro no Ceu

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Um Cavaleiro no Céu por Ambrose Bierce


Por uma tarde ensolarada do outono de 1861, um soldado jazia deitado em meio a uma moita de loureiros junto a certa estrada no oeste de Virgínia. Estava deitado de bruços, as pontas dos pés tocando o chão, a cabeça apoiada no antebraço esquerdo. A mão direita, estendida, segurava frouxamente o rifle. Porém, dada a disposição algo metódica de seus membros, e um vago movimento rítmico da cartucheira no dorso do cinturão, se poderia pensar que estivesse morto. Dormia em seu posto de vigilância. No entanto, se detectado, morreria imediatamente, sendo a morte a penalidade legal para esse crime.

A moita de loureiros na qual jazia o criminoso situava-se no ângulo de uma estrada que, após ascender a pino em direção ao sul até aquele ponto, dobrava bruscamente para oeste, correndo sobre a crista por talvez uma centena de jardas. Daí virava para o sul outra vez e ziguezagueava para baixo através da floresta. Na saliência daquele segundo ângulo havia uma grande rocha achatada, que se projetava para o norte por sobre o vale profundo de onde subia a estrada. A rocha coroava um alto precipício: uma pedra atirada de lá cairia por uns bons mil pés antes de atingir o topo dos pinheiros. O ângulo onde se encontrava o soldado ficava na outra ponta do precipício. Se estivesse desperto, teria uma ampla visão não só do curto trecho de estrada e do rochedo eminente, mas também de toda a face do abismo por baixo dele. Poderia ter uma vertigem ao olhar.

Árvores cobriam a paisagem por toda parte, falhando apenas ao pé do vale, ao norte, onde havia um pequeno descampado; através dele fluía um regato que mal se avistaria da orla do vale. Essa área descoberta pareceria pouco maior que um pátio de entrada comum, mas tinha de fato muitos acres de extensão. Seu verde era mais vivo do que o da floresta circundante. Para além dele erguia-se uma linha de gigantescos despenhadeiros, semelhantes àquele em que nos postamos agora para observar essa cena selvagem, e em meio a eles a estrada, de algum modo, conseguia galgar até o cimo. Com efeito, a configuração do vale era tal que, deste ponto de observação, pareceria inteiramente enclausurado; e se poderia perguntar de que maneira a mesma estrada que levava para fora dele penetrava nele, e de onde vinham e para onde iam as águas do regato que atravessavam a campina a mais de mil pés abaixo.

Cenário algum seria tão selvagem e difícil, mas os homens farão dele um teatro de guerra. Ocultos na floresta, ao pé daquela ratoeira militar, onde meia centena de homens guarnecendo as saídas teriam obrigado um exército inteiro a se render por inanição, havia cinco regimentos da Infantaria Federal. Tinham marchado durante todo o dia e durante toda a noite anterior e agora descansavam. Ao cair da noite retornariam à estrada, subiriam até o lugar onde sua sentinela irresponsável estava dormindo e, descendo pelo outro lado, se lançariam sobre o acampamento inimigo por volta da meia-noite. Depunham esperança na surpresa, pois a estrada conduzia à retaguarda do acampamento. Em caso de fracasso, sua posição teria sido perigosa em extremo. E certamente falhariam, se algum acidente ou vigilância notificasse o inimigo a respeito desse movimento.

A sentinela adormecida na moita de loureiros era um jovem de Virgínia, chamado Carter Druse. Era filho único de pais ricos e tinha desfrutado das facilidades, do cultivo e do alto padrão de vida que a riqueza e o gosto são capazes de proporcionar na região montanhosa a oeste de Virgínia. Sua casa ficava a poucas milhas do local onde ele estava agora. Certa manhã ele se levantou da mesa, após o café, e disse, em tom compenetrado e grave:

– Pai, um regimento da União chegou a Grafton. Vou me juntar a ele.

O pai ergueu a cabeça leonina, olhou em silêncio para o filho durante um momento e respondeu:

– Bem, vá, meu senhor. E, aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever. A Virgínia, para a qual você é um traidor, deve passar sem você. Se vivermos até o fim da guerra, falaremos mais tarde sobre o assunto. Sua mãe, como o médico informou a você, se encontra numa situação bastante crítica. No máximo, poderá estar entre nós por mais algumas semanas, mas esse tempo é precioso. Seria melhor não perturbá-la.

Então Carter Druse, fazendo uma reverência ao pai, que correspondeu à saudação com uma cortesia altiva em que se ocultava um coração partido, deixou o lar de sua infância para se alistar. Pela consciência e pela coragem, por atos de devoção e de audácia, ele logo se tornou respeitado entre os camaradas e os oficiais. E era a essas qualidades e a certo conhecimento da região que devia agora ter sido selecionado para a presente e perigosa tarefa na posição extrema. Entretanto a fadiga foi mais forte que sua resolução, e ele adormeceu. Que bom ou mau anjo veio num sonho despertá-lo de seu estado criminoso, ninguém saberá. Sem o menor movimento, sem um som, no profundo e lânguido silêncio da tarde, algum mensageiro invisível do destino tocou com o dedo os olhos de sua consciência; sussurrou no ouvido de seu espírito a misteriosa palavra do despertar que nenhum lábio humano jamais pronunciou, nenhuma memória humana jamais recordou. Ele levantou devagar a fronte, que se apoiara no braço, e olhou através da camuflagem dos ramos de loureiro, fechando instintivamente a mão sobre a coronha do rifle.

Sua primeira sensação foi a de um extremo deleite artístico. Num portentoso pedestal, o precipício – imóvel na extremidade da rocha superior e nitidamente recortado contra o céu –, via-se uma estátua eqüestre de impressionante dignidade. A figura do homem completava a figura do cavalo, rígida e marcial, mas com o repouso de um deus grego esculpido no mármore que limita a sugestão de atividade. O traje cinzento se harmonizava com o fundo aéreo; o brilho metálico dos equipamentos e dos jaezes era amenizado e suavizado pela sombra; a pele do animal não tinha pontos de luz excessiva. Uma carabina drasticamente amputada estava presa ao cocuruto da sela, segura em seu lugar pela mão direita que a sustinha pelo gatilho; a mão esquerda, segurando a rédea, estava invisível. Silhuetado contra o céu, o perfil do cavalo se recortava com a nitidez de um camafeu; olhava através das alturas em direção aos precipícios lá adiante. O rosto do cavaleiro, voltado para outra banda, deixava entrever apenas um princípio de têmpora e de barba. Olhava para baixo até o fundo do vale. Aumentado pela sua elevação contra o céu e pela sensação patente, que o soldado experimentou, da grandeza de um inimigo próximo, o grupo pareceria de um tamanho heróico, quase colossal.

Por um instante Druse teve uma sensação estranha, meio indistinta, de ter dormido até o fim da guerra e de estar olhando para um nobre trabalho de arte erguido sobre aquele píncaro para comemorar os feitos de algum passado heróico do qual ele teria sido um participante inglório. A sensação foi dispersada por um sutil movimento do grupo: o cavalo, sem mover as patas, afastara o corpo ligeiramente da borda, sendo que o homem permaneceu imóvel como antes. Cada vez mais desperto e consciente da situação, Druse apertou a coronha de seu rifle contra o queixo e enfiou com cuidado o cano por entre os arbustos. Armou o cão, olhando através da mira, e visou um ponto vital no peito do cavaleiro. Um toque no gatilho, e tudo estaria bem com Carter Druse. Nesse instante, o cavaleiro voltou a cabeça e os olhos na direção de seu adversário oculto – pareceu fitar mesmo em seu rosto, em seus olhos, em seu coração bravo e apaixonado.

Será tão difícil matar um inimigo na guerra – um inimigo que surpreendeu um segredo vital à segurança de alguém e de seus camaradas – um inimigo mais formidável pelo que sabe do que todo um exército por seus números? Carter Druse empalideceu: seus membros tremeram, falharam; e ele viu o grupo escultural à sua frente, como figuras negras que subiam, caíam, oscilavam em arcos de círculos sobre um céu de sonho. Sua mão se afastou da arma, sua cabeça caiu lentamente até que o rosto repousou sobre as folhas em meio às quais ele jazia. A intensidade da emoção quase fez desmaiar esse soldado corajoso e robusto.

Não durou muito. No momento seguinte seu rosto se ergueu da terra, suas mãos retornaram ao rifle, seu indicador buscou o gatilho. Mente, coração e olhos estavam limpos, conscientes, e a razão era clara. Não havia esperança de capturar aquele inimigo. Alarmá-lo teria sido apenas remetê-lo de imediato ao acampamento com sua notícia fatal. O dever do soldado era estrito: o homem tinha de ser alvejado por emboscada – sem aviso, sem preparação espiritual, quando muito com uma prece tácita, antes de ser liquidado. Mas não – há uma esperança: ele pode não ter descoberto nada, talvez esteja apenas admirando a sublimidade do cenário. Se permitido, daria meia volta e galoparia descuidado em direção ao lugar de onde viera. Com certeza, será possível julgar, no instante de sua retirada, o quanto saberá. Pode até ser que a fixidez de sua atenção – Druse voltou a cabeça e olhou para as profunduras lá embaixo, como quem olha da superfície para o fundo de um mar translúcido. Viu galgar através da campina verdejante uma linha sinuosa de figuras de homens e de cavalos – algum comandante imbecil estaria permitindo aos soldados de sua escolta dar água aos animais à vista aberta e plena de uma dúzia de picos!

Druse desviou os olhos do vale e os fixou outra vez sobre o grupo de homem e cavalo no céu, e outra vez através da mira do rifle. Mas desta vez seu alvo estava no cavalo. Em sua memória, como um mandado divino, soaram as palavras de seu pai quando partiu: “Aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever.” Estava calmo agora. Seus dentes se fecharam com firmeza, mas não rigidamente. Seus nervos estavam tranqüilos como os de um bebê que adormeceu; sequer um tremor agitava um único músculo de seu corpo. Sua respiração, suspensa até então no ato de mirar, tornou-se regular e lenta. O dever prevaleceu. O espírito disse ao corpo: “Paz, fique quieto.” Atirou.

Um oficial da Força Federal, o qual, num espírito de aventura ou de busca de conhecimento, tinha deixado o bivaque escondido no vale e, um tanto a esmo, abrira caminho até a extremidade mais baixa de um pequeno espaço aberto ao pé do precipício, considerava o que teria a ganhar se levasse mais longe a exploração. À distância de um quarto de milha em frente, mas aparentemente ao alcance de uma pedrada, elevava-se da franja dos pinheiros a gigantesca face da rocha, atingindo uma altura tal que lhe daria vertigem olhar para cima em direção à linha escarpada e aguda que se recortava contra o céu. Seu perfil se apresentava claro e vertical contra o azul do céu, indo até um ponto mais abaixo, acompanhado das colinas distantes, pouco menos azuis, e daí seguia até os topos das árvores na sua base. Levantando os olhos para a estonteante altitude do cimo, o oficial teve uma visão estarrecedora – um homem montado a cavalo descia para o vale através do ar!

O cavaleiro mantinha-se a prumo, bem ao modo militar, sentado firme na sela, segurando com força as rédeas para controlar sua montaria num salto tão impetuoso. De sua cabeça desnuda flutuavam longos cabelos, saindo dela como fumaça. As mãos estavam ocultas pela nuvem da crina levantada. O corpo do animal permanecia nivelado, como se as quatro patas encontrassem o apoio da terra. Seus movimentos eram como os de um galope selvagem, mas cessaram enquanto o oficial olhava, todas as patas lançando-se para a frente, como no ato de pousar após um salto. Mas isso era um vôo!

Cheio de espanto e terror devido à aparição do cavaleiro no céu – e quase se acreditando já o escriba escolhido de algum novo Apocalipse –, o oficial se viu subjugado pela intensidade de suas emoções. Suas pernas falharam, e ele caiu. Quase no mesmo instante, ouviu o ruído dos galhos se partindo – um som que não produziu eco –, e tudo se aquietou.

O oficial se levantou, tremendo. A sensação familiar de uma canela esfolada lhe restituiu a faculdades ofuscadas. Recompondo-se, correu para baixo, afastando-se do sopé do penhasco, para um ponto onde esperava encontrar o homem, o que não adiantou. No instante fugidio de sua visão, sua imaginação fora de tal maneira arrebatada pela graça, facilidade e intencionalidade aparente da maravilhosa performance que não lhe ocorreu que a linha de marcha da cavalgada aérea era diretamente para baixo e que os objetos de sua busca poderiam ser encontrados bem ao pé do penhasco. Meia hora depois ele retornou ao acampamento.

Esse oficial era um sábio, que conhecia muito bem a hora de não contar uma verdade incrível. Não disse nada sobre o que vira. Mas, quando o comandante lhe perguntou se, em sua batida, descobrira qualquer coisa de vantajosa para a expedição, respondeu:

– Sim, senhor, não existe estrada para este vale a partir do sul.

O comandante, que bem sabia, sorriu.

Depois de atirar, o soldado Carter Druse recarregou o rifle e retomou a vigilância. Mal se passaram dez minutos, e um sargento dos federais engatinhou com cautela até ele. Druse não se voltou, nem olhou para ele, mas permaneceu imóvel, sem dar sinal de reconhecimento.

– Você atirou? – murmurou o sargento.

– Sim.

– Em quê?

– Num cavalo. Estava sobre aquela pedra – bem ali. Mas não está mais lá. Voou para o precipício.

A cara do homem estava branca, mas ele não mostrava outros sinais de emoção. Tendo respondido, desviou os olhos e não disse mais nada. O sargento não entendeu.

– Olhe aqui, Druse – disse, depois de um silêncio –, é melhor não fazer mistério. Ordeno que dê o relato. Havia alguém sobre o cavalo?

– Sim.

– Então?

– Meu pai.

O sargento se levantou e se afastou.

– Deus do céu! – disse.

(Tradução de Renato Suttana)

Flor, telefone, moca

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Flor, telefone, moça de Carlos Drummond de Andrade. 


Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

E sorrindo:

– Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!

– No interior isso não é raro…

– Mas a moça era de Botafogo.

– Ela trabalhava?

– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma… Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.

– Que flor?

– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.

Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.

– Aloooô…

– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:

– O quê?

Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.

– Alô.

– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.

– Está aqui comigo, vem buscar.

No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:

– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.

Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:

– Vem buscar, estou te dizendo.

– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.

– Mas quem está falando aí?

– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.

– Diga o nome, senão eu não dou.

– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.

O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.

Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.

– Alô!

– Quede a flor…

Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:

– Olhe, vire a chapa, já está pau.

– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.

– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?

E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter medo.

– E eu também.

– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.

A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “a voz”.

– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.

– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.

Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?

O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia… Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.

Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a “voz”, que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem que restituir”, etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.

Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica…

– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?

– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.

Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse…

O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.

Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?

O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?

– Mas, e a moça?

– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

– Sei de um caso de flor que é tão triste!

OPERACOES SECRETAS

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Operações Secretas por Francisco Farias Jr.

Já era madrugada quando uma estranha ave aterrissou na árvore em algum logar da Serra do Mar, próximo dali havia movimentações dentro de uma a cabana. O pássaro observou através da janela conversas de dois homens que acreditavam na confidencialidade de suas descobertas. Mas será que ainda existe algo a esconder? Um mistério que não tornou publico? Eles ocultaram tudo, inclusive suas vidas por meses dentro daquela habitação em condições precárias no meio da mata. Tentavam desenvolver uma técnica que funcionou bem com as cobaias de sapos, em seguida testaram em animais maiores como quatis e macacos, até perceberem que os efeitos eram conclusivos. Ali estavam dois brilhantes acadêmicos que arriscavam tudo em busca de resultados, defendiam seus conceitos teóricos, os rostos impregnados por espinhas indicavam que eles ainda eram jovens sonhadores, determinados a mudar o mundo com seus sonhos e descobertas. Wesley, mais moço, um prodígio que aos dezesseis anos já conseguiu entrar nas melhores universidades. Já Pedro Monstro possuía mais defeitos, entre eles, a intolerância pelo fracasso e falta de moral. Por isto estavam ali, num laboratório escondido na serra, assim nenhum professor antiquado e moralista os atrapalhariam. Estavam eufóricos com o nascimento de uma nova forma de manipular os impulsos neurais através do eletromagnetismo transmitido por frequências de rádio; sempre na surdida, experiências ocultas, muito cuidados para a sociedade não descobrir. Será que as pessoas estavam prontas para a revelação daqueles dois cientistas? Não, certamente alguém mal-intencionado a utilizaria de maneira ilícita.

Ilegal era o que ambos praticariam pelo bem da ciência, testes girando em torno das ordens nas terminações nervosas dos animais que responderam bem aos estímulos elétricos. Todos os neurônios se conectam através de impulsos microelétricos, quando se descobre a quantidade precisa de magnetismo para estimular as sinapses cerebrais que percorrem os nervos até movimentar nossos músculos teremos uma criatura obediente a comandos previamente programados, servos submissos à dominação de um transmissor de rádio. Simples perfeição provocada graças ao acúmulo de milhares de transistores implantados na base frontal do cérebro. Experiência que funcionou bem com mamíferos, principalmente os primatas, porém a ondas emitidas foram testadas restritamente em espécies irracionais. Como maravilhosa técnica reagiria nos seres humanos? Será que as pessoas obedeceriam de forma submissa como os bichos da selva? Ou tais comandos entrariam em conflito com o livre arbítrio? Eram estas indagações que os dois cientistas amigos estavam dispostos a desvendar, mesmo arriscando suas liberdades.

– Nós estamos com um problema sério agora, – disse desanimado Wesley ao seu parceiro – precisamos de um cadáver para prosseguir a próxima etapa do projeto.

– Um cadáver?  Você notou que não tínhamos respostas quando utilizamos espécimes mortas. – respondeu P. Monstro arquitetando outra ideia – Precisamos de uma pessoa viva, inconsciente porém viva.

– Mas como vamos conseguir um voluntário? – perguntou o outro, acenado não ariscar sua vida para ser uma cobaia.

– O plano é assim – começou P. Monstro dizer suas loucuras enquanto pegava uma seringa. Ele sempre agia assim, uma mente brilhante que passava por cima que qualquer coisa pelo bem da ciência; ou melhor, atropelava éticas e crendices religiosas porque pensava que sua convicção valeria muito mais do que uma legalidade qualquer – quando anoitecer você passa na sua casa e toma um banho, faz a barba, se arruma, passa perfume e segue até o centro da cidade onde estão muitas rameira atrás de clientes nas ruas. A primeira que entrar no carro você injeta esta anestesia da seringa e traga ela depressa para cá. É simples e rápido. Entendeu?

– Mas por que eu tenho que fazer sozinho? Tem mesmo que ser uma garota de programa?

– Simples, porque tua cara de maricas expressa mais confiança, além da sua conversa de donzelo que cativa as mulheres. Com certeza você vai conseguir, além disso, eu estarei aqui fazendo os preparativos.

– Mas uma garota de programa?

– O que você sugere então? Que coloquemos um anuncio nos classificados pedindo que mandem currículos para análise? Não há outro jeito, esta será a noite derradeira. É tudo ou nada, endente? Agora vá!

A trilha quase oculta na mata dificultava a descida solitária do cientista Wesley, era uma caminhada considerável de quase uma hora até a estrada de terra onde uma caminhonete suja de barro ficava escondida debaixo de galhos secos e cercada pelos espinhos de arbustos bravios. Mais difícil foi o regresso dele carregando um corpo inconsciente sobre a sombria noite na floresta. Não dava para utilizar lanterna durante a subida porque seus dois braços seguravam a desmaiada de roupa insinuante que cheirava a cigarro e creme hidratante. No meio do caminho Wesley já estava exaurido, sem conseguir suportar a carga ele largou o corpo na trilha e subiu sozinho para pedir ajuda ao amigo.

– Agora você sabe por que tinha de ser uma mulher, elas são leves e tem pouca força física. – disse P. Monstros assim que ergueu a podre prostituta para transportá-la junto com Wesley.

Os dois entraram ofegantes na cabana e jogaram a vítima de qualquer jeito sobre a mesa posicionada no centro da casa. Com aparência serena a coitada nem imaginara seu fim; ela usava um minúsculo short, com corpete que esmagava seus volumosos seios agora úteis somente para o bem da ciência. Dava para ver as formigas caminharem pelas mechas de cabelo sujo de terra e incontáveis carrapichos tomavam conta do pedaço de tecido que cobria seu sexo bastante requisitado outrora.

Após um breve descanso P. Monstro levantou-se da cadeira e caminhou até a mulher,  sobre a luz da lâmpada ele a olhou com mais atenção, até virar para Wesley de dizer:

– É impressão minha ou você conseguiu pegar a rameira mais feia da cidade?

O rapaz mais jovem se aproximou, segurou o rosto desfalecido da vítima que jazia desengonçada sobre a mesa até girar o pescoço de um lado para outro e responde:

– Ela é mais bonita que a tua irmã!

– Pelo menos você não se confundiu – acrescentou sorrindo o outro, tentando atenuar o nervosismo e completou – a última vez que você foi à zona acabou se apaixonando por um travesti.

Com esta descontração aflitiva os dois ligavam as parafernálias em torno da mulher desfalecida no centro da rústica cabana na serra. Enquanto um preparava os conectores a ser introduzidos dentro do crânio da prostituta, o outro colocava a broca de 6 milímetros na furadeira já conectada na tomada.

– Não esqueça as cordas, temos que amarrar bem. – advertiu P. Monstro durante a marcação na testa da mulher com caneta onde seria perfurada e completou – Lembra do que aconteceu com o último macaco que nós perfuramos o cérebro?

– Ainda tenho os hematomas de quando tentei segurar o bicho. Parecia um zumbi se debatendo. Espera, vou pegar uma fita para abafar os gritos.

Após a involuntária cobaia ser presa à mesa soou pela mata o característico som rotatório da furadeira atravessando uma superfície dura. Eram duas incisões, uma em cada lado da fronte, onde seriam inseridos dois implantes receptores.

– Está saindo muito sangue pelos buracos, enfia logo os implantes na cabeça dela.

– Estou tentando, mas ela não para de se mexer! Wesley, deixa de ser maricas e venha aqui! Segura bem a cabeça.

– Cara, ela está olhando para mim... eu não aguento ver uma mulher chorando... o quê faço?

– Fura os olhos dela, prende firme a cabeça, já estou acabando!

A mente da cobaia desligou no instante que P. Monstro enfiou os dois aparelhos receptores dentro da delicada massa cinzenta, tão frágil como o sensual corpo de sua dona. Não havia mais nenhum sinal de resistência, apenas respiração ofegante. Tamanha brutalidade tinha uma explicação, pelo menos para os dois cientistas: tudo pelo bem da ciência, pela inovação que curaria várias enfermidades mentais. Mas agora só servia para trazer dor e sofrimento a todos envolvidos.

Mazelas e brutalidades em prol da medicina valem a pena? Não caberá a mim como narrador responder tal questão ética porque as experiências obscuras destes dois cientistas não se compara com o que está reservado no fim da história.

Pareciam duas antenas de inseto o implante conectado na testa da prostituta imóvel e já desamarrada. Pedro Monstro ajeitou-se em frente à escrivaninha que possuía um gerador de energia, algo parecido com um transmissor de rádio, microfone, além de uma máquina que transforma comandos de voz em micropulsos elétricos. O rapaz fez alguns cálculos, ajustou os botões para uma boa recepção, ligou o microfone e – após uma pausa – ordenou:

– Ei, você piranha. Se tiver me ouvindo levanta da mesa!

De imediato a mulher ergueu a cabeça, aprumou as pernas no chão e ficou de pé. Seus olhos femininos e borrados de rímel não tinha mais vida, sem direção ela focalizava o nada absoluto.

– Veja Wesley, está funcionando! – comemorou P. Monstro para o amigo sentado cabisbaixo do outro lado da cabana, sem querer ver, desolado com que acabara de fizer; porém o outro insistiu – Olha, ela está de pé. Pega a câmera e grave enquanto eu prossigo com os comandos.

– Suellen...

– O quê você desse? – perguntou P. Monstro.

– O nome dela não é piranha... Quando ela entrou no meu carro ela disse que seu nome era Suellen. Não é certo o que estamos fazendo. Eu iludi esta moça para depois torturá-la com experiências. Ela pensava que iria para um motel comigo e nós até conversamos, antes de dopá-la com a injeção ela confessou que fazia programas para realizar seu sonho de cursar faculdade. Suellen era jovem, cheia de expectativas e sonhos como nós dois.

P. Monstro pegou a calculadora e arremessou, acertando a cara do amigo. Indignado Wesley levantou, expressando em seu rosto querer explicações para tamanha agressão. Uma nova ordem foi dada ao microfone para a mulher.

– Qual é seu nome piranha?

– Sôniaaa Mariaaa... Gemeu a mulher em resposta, parecendo uma voz sofrendo no purgatório.

– Tá vendo? Ela mentiu para você. Seu nome não é Suellen, mas sim Sônia Maria – celebrou P. Monstro satisfeito pela resposta da cobaia, nos testes anteriores com animais nenhum interagia tão bem, entretanto ele continuou falando com raiva – Não me diga que está apaixonado agora! Nós passamos meses enclausurados neste barraco no meio do mato, sendo devorado por mosquitos, tomando banho de chuva e usando moitas como banheiro. Que inferno Wesley! Nossa liberdade está em risco e você quer fraquejar? Não existem mais pessoas ingênuas! Ninguém neste mundo é coitadinho! Agora pega a câmera e grava os testes!!!

Wesley obedeceu, mesmo com tristeza no coração, ele teria que seguir com o plano.

Comando de voz eram dados para a prostituta que acatavam sem hesitar, ela caminhou pela casa, respondeu com dificuldades problemas matemáticos, fez strip-tease e plantou bananeira. Até Wesley alertar algo anormal acontecendo com a cobaia, uma transpiração excessiva tomava conta do seu corpo; de repente ela perdeu o equilíbrio e desabou no chão convulsionando.

– O que está acontecendo com ela? Perguntou Wesley.

P. Monstro correu para examiná-la, notando que a pressão estava alta, batimentos cardíacos frenéticos, pupilas dilatadas e a tremedeira diminuindo quando ele respondeu:

– Ela está com muita febre, principalmente na têmpora. Pegue o termômetro.

Não era mais necessário reanimar a mulher. A experiência teve outra perda, porém as mortes anteriores foram animais silvestres e desta vez era uma vítima humana. Os dois cientistas atravessaram uma fronteira entre atos tolerados e práticas criminosas.  Ambos eram homicidas agora. Pedro Monstro recebeu o termômetro, arrancou o implante da feriada para medir a temperatura,  lá dentro saiu um odor característico de carne cozida.

– Foi a resistência dos condutores, o aparelho derreteu seu córtex frontal.

– Não acredito, ela está morta? – perguntou Wesley.

– Foi uma morte lamentável, mas significante para nós. Não se preocupe vamos trabalhar para corrigir este defeito.

– E o que faremos com o corpo?

– Ainda não sei, mas eu me importo com ela. – grasnou P. Monstro ironicamente e prosseguiu – Este foi o melhor strip-tease que assisti e ela merece um enterro descente.


Os animais, por instinto de sobrevivência, migravam para longe da cabana onde os dois jovens faziam experiências, talvez o medo irracional dos bichos na floresta fosse provocado pela escassez de comida ou pela mudança de estação. O inverno chegou com os dois amigos gastando tempo em sutis melhorias no implante cerebral para evitar o aquecimento provocado pela resistência, porém os resultados seriam constatados enfiando o aparelho dentro do crânio de uma nova vítima. Desta vez P. Monstro saiu, arriscando-se na cidade até sequestrar outra cobaia humana; entre as opções ele preferiu capturar um menino de rua porque era fácil carregar na subida da trilha até o laboratório. Pedro Monstro arrastou o garoto desmaiado picada acima pressentindo algo errado no ambiente. Ele ouvia destorções vagas de sons bem ao longe, até que abandonou o corpo desmaiado no caminho, subiu com cuidado pela trilha e percebeu que mais gente estava na cabana remexendo seu laboratório. O cientista pela primeira vez sentiu medo; ele aproximou sem silêncio para compreender o que acontecia e descobrir onde estaria Wesley, desta maneira ele sentiu toda perdição de seus estudos ao notar soldados armados do governo revirando as coisas lá dentro. Ele viu através da janela seu parceiro Wesley, seu único amigo de estudos e contravenções sentado na poltrona que fica no canto da sala e desanimado como sempre. Porém P. Monstro falhou em manter-se oculto. Os guardas notaram sua presença.

– Hey you, quit! – uma voz gritou lá de dentro.

Seria possível?  Agentes estrangeiros conheciam seus estudos do controle cerebral?  Tudo estava arruinado porque não seria preso por soldados de seu país, mais sim cretinos da nação que tudo espiona.

– Put your hands up! – gritou novamente.

– Ok, keep calm. – falou um outro.

Pedro Monstro sabia qual seria seu fim caso ficasse parado com as mãos levantadas em rendição; assim resolveu arriscar outro desfecho dando meia volta e correndo barranco abaixo, sempre embrenhando mais e mais na mata fechada. Ele ignorou as ordens de parar porque sabia que aqueles gringos fardados não atirariam pelas costas. Infelizmente a lei não foi obedecida pelos dois cientistas, muito menos por mercenários em terras alheias. Pedro Monstro fugia acuado quando sentiu a primeira fisgada na coxa direita, um disparo em sua perna o faria parar cedo ou tarde. O homem ferido sentia sua perna queimar, nada que ele conhecia se comparava aquela dor; porém o agravo aumentou quando uma onda eletromagnética, emitida pelo projétil, paralisou parte de seus nervos e tendões. Uma arma que neutraliza, semelhante cordas invisíveis atadas nas articulações de um fantoche.

O jovem mancou até um córrego, tentou atravessar com muita dificuldade as águas rasas, mas sentia muita dor. Algo rasgava sua perna semelhante uma faca cega, como se a pele fosse separada das fibras muscular que encobriam seu fêmur. Ele soltou a fivela do sinto e baixou as calças para ver a ferida na coxa, deste modo percebeu um volume pavoroso escalando sua perna por baixo do couro.

Um verme estava dentro do projétil disparado, algo com muitos tentáculos energizados agarrava a carne viva do jovem para se locomover, lhe dando choques elétricos. Ele começou esmurrar sua perna para neutralizar o bicho escalador, até que P. Monstro gemeu no instante que o verme alcançou a virilha e ajoelhou de dor quando os tentáculos agarraram seus culhões.

Os agentes estrangeiros chegaram às margens do córrego, encontrando um homem deitado na rasa correnteza, agonizando em dores. As lanternas iluminaram P. Monstro e dava para observar um bicho caminhando por dentro de seu tórax, percorreu a garganta, entrou na boca, um tentáculo quase saiu pela narina, percorreu entre os olhos e parou bem acima das sobrancelhas. Pior sensação que Pedro Monstro poderia suportar, o verme começou perfurar seu crânio até introduzir os tentáculos, fixar-se na base do cérebro e controlar sua mente. Antes de perder completamente a consciência, Pedro Monstro sentiu a antena do implante verminoso sair através da fronte e pensou preocupado:

– Será que eles conseguiram superar o problema de resistência?

Pedro Monstro caminhou submisso até a cabana, escoltado pelos soldados, lá estava Wesley também com uma antena saindo de sua testa. Tudo que os dois desenvolveram e construíram estava sendo destruído, nada poderia cair em mãos erradas. As armas secretas não depende de sua eficiência para serem poderosas mas sim continuarem ocultas. Quem decide como e quando serão utilizadas são seus detentores.

Os dois cientistas desmazelados teriam como fatídico destino serem esquecidos em prisões desconhecidas e sofrer torturas bem mais agonizantes que à prostituta Sônia Maria.

GUARDIAO NUMERO 12

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Guardião Número 12, Francisco Farias Jr.


Antes de tocar em solo, o veículo fez alguns sobrevoos para reconhecer a área ameaçada. O único tripulante humano olhava através da redoma a pacata e escura colônia de mineradores quase encoberta de areia trazida pelas terríveis tempestades marcianas. Sobre a superfície, ao entorno da construção, podia-se observar uma dúzia de tratores estacionados um ao lado do outro, sem falar das três montanhas de minério de ferro que esperavam serem carregados para fora do Planeta, onde seriam fundidos e transformados em novas embarcações espaciais. Uma calamidade terrível afetou aquela colônia porque, desde a fuga da humanidade da Terra, ela nunca parou de produzir. A sociedade necessitava da escavação de ferro, era crucial para projeção de novas arcas espacial que abrigasse toda vida expulsa de um planeta em ruínas. Por que uma colônia tão essencial para nossa civilização interrompeu completamente sua produção sem mais fazer contato com a Estação Espacial do Governo? Uma única explicação era plausível, um surto viral atingiu os trabalhadores que residiam na estação de extração de ferro. Porém os computadores da astronave mostrava algo bem pior, enquanto o veículo sobrevoava a colônia, varreduras com escâneres eram feitas. A análise mostrava que os amaldiçoados conseguiram escapar do planeta Terra, camuflados em meio a milhares de pessoas. Nosso predador saiu de sua incubação, passando a dizimar os operários desta jazida.

Uma pequena luminosidade chamou atenção do religioso que pilotava a nave, sobreviventes pediam ajuda, atraindo com luzes o veículo que sobrevoava a área. Encontrar uma plataforma isolada na outra extremidade da construção era suficiente para toda vida remanescente embarcar. A astronave manobrou, descendo lentamente, até acoplar na estrutura que dava acesso à colônia. O piloto era um bispo da nova ordem humana, ele observou que a temperatura externa estava abaixo de zero, em seguida deixou as funções de navegação a cargo do comando de bordo e seguiu até sua cabine.

Com gestos ensaiados o religioso sacramentava todos os acessórios que cingia em seu corpo, a roupa extra que vestiu, o talabarte que prendiam estacas de cedro, pegou seu terço, inclusive o óleo ungido que beijou para colar dentro do alforje preso ao cinto. Tudo benzido contra o maligno, que desejava sugar a humanidade por completo. O bispo depois caminhou até a galeria próxima à saída e acionou um painel na porta, ouvindo uma voz masculina:

– Aguardando instruções de Vosso Reverendíssimo.

– Acione as unidades em modo defesa.

– Reverendíssimo, de acordo com dados coletados anteriormente, esta colônia de mineradores detestam máquinas humanoides. – ponderou o computador, justificando – Eles sempre destruíram tais robôs porque temem por seus empregos.

– Certo. Mesmo assim disponha a unidade 12 e coloque as demais em modo prioridade.

– Sim Reverendíssimo.

Uma espécie de armário teve sua porta erguida, de dentro saiu uma unidade robótica com uns dois metros e meio de altura, um brutamonte autômato revestido de armadura protetora e duas lâminas reluzentes presas em seus antebraços. A máquina intimidadora marchou até parar na frente do bispo e bradou:

– Insira a senha de comando.

– Que Deus esteja conosco! – disse o religioso ao androide de batalha.

No mesmo instante o robô baixou sua guarda e curvando-se ante seu mestre.

O reverendíssimo seguiu com a máquina na direção da plataforma, quando ambos pararam em frente à escotilha de acesso, ouvindo uma movimentação atrás do limiar de aço. Antes de liberar as travas o bispo precisou ser prudente e ligou o comunicador para identificar quem estava lá fora:

– Saudações mineradores da Colônia Nova Odisseia, aqui é Bispo Derick, emissário do Governo para descobrir o que acometeu convosco.

– Deus realmente ouviu nossas orações e mandou o senhor para nos resgatar, traga a luz da cruz de cristo contigo e libere o acesso para nós embarcarmos. – respondeu outra pessoa através do aparelho próximo a escotilha, deixando transparecer certo desespero.

– O que está acontecendo?

– Aquilo que os homens mais temiam está entre nós, o predador de gente conseguiu escapar da Terra disfarçado de minerador e ficou escondido, porém sua fome foi maior e agora vampiros estão aniquilando toda colônia! – dizia a voz lamentosamente amargurada, em seguida continuou – Pelo amor de Cristo saia para nos proteger dos demônios que desejam tragar nosso sangue e devorar nossas almas.

O bispo confirmou aquilo que previa, como também reparou através do diálogo que do outro lado havia um cristão. Assim ele acionou o comando para abrir a escotilha. Bispo Derick sentiu as primeiras partículas de ar congelado passar pela entrada, um expressivo cheiro de podridão indicando que a mortandade também habitava aquele lugar. Por um instante ele sentiu náuseas mas a porta continuava abrindo então tentou mostrar seriedade.

Do outro lado estavam três homens bem agasalhados, com expressões aterrorizantes e sujos. Eles seguravam bastões que emitiam luz química florescente. Os três protegeram os olhos e sorriram ao sentir a grande luminosidade contida dentro na astronave.

– Abençoado seja vossa presença pois estávamos sem esperanças de resgate.

– Eu sou Bispo Derick. Apenas vocês sobreviveram?

– Não, somos um total de 27, os demais estão trancados em um compartimento naquela direção – respondeu um dos homens que, apesar de falar perfeitamente bem, possuía um implante na mandíbula e em parte do pescoço estruturado com circuitos, medula sintética e titânio no lugar de ossos. Esta mesma pessoa, que parecia um cyborg, apontou para a escuridão do corredor atrás deles e prossegui falando – fica a uns quinhentos metros daqui.

– E os vampiros?

– Estão escondidos nas trevas, talvez bem ao nosso lado. – desta vez quem falou foi um ancião. Bispo Derick ouvira falar daquele idoso, ele era um dos pioneiros a deixar o destruído solo terrestre, seu nome era Moreira Baxter, administrador da colônia de mineradores Nova Odisseia. O velho olha o grande robô de guarda com repugnância e diz – Nós aqui fomos instruídos contra está máquina que rouba nossos empregos, tememos este robô tanto quanto os vampiros aqui dentro.

– Ele é apenas um guardião, instrumento que nos protege com sua força mecânica – falou o religioso.

– Os vampiros tiram nossas vidas, mas enquanto estamos vivos, estas coisas roubam nossos empregos e dignidade. – concluiu o velho Baxter com uma voz cansada pela idade, arrematando seu discurso comunista – Para o senhor reverendíssimo quem é pior, o mal que nos ataca ou a criação que substituirá os homens?

Por alguns instantes o bispo refletiu sobre os que o ancião disse para depois responde, tentando evitar discórdia:

– Este não é o momento apropriado para 'automatonofobia', mesmo assim agirei de acordo com as regras desta colônia. Vou aguardar aqui com meu guerreiro enquanto os senhores retornam para buscar os sobreviventes.

– De acordo, eu também ficarei. Disse Baxter com sua voz cansada.

– Por favor, senhor Baxter, o bispo tem que seguir conosco e levar um pouco de conforto para dona Magnólia – discordou o terceiro homem, um jovem magrelo que estava pálido. Virando para o religioso este explicou – Magnólia foi ferida na fuga, não dispõe de muito tempo de vida. Ela está muito aflita com seu fim e o senhor tem que entregá-la a extrema unção.

– Neste caso temos uma divergência e pouco tempo para discutir. Assim iremos todos sem mais delongas. Disse Bispo Derick tomando a frente da marcha pela gélida escuridão, os outros três atentaram à falta de resposta emitida pelo silencio e resolveram seguir com suas luzes químicas atrás do grande robô.

Na primeira curva, Número 12 acendeu suas lanternas facilitando a visualização do trajeto. Tudo seguia relativamente bem, porém os ouvidos do bispo não estavam acostumados com os estranhos sons da estação mineradora. Baxter, que sempre recepcionou os novos operários, percebeu a indisposição do religioso e tentou puxar conversa para acalmá-lo.

– Os operários daqui me tratam por Velho Baxter, o rapaz caladão é Tito, já este sujeito falador chama-se José ou apenas Zé. O Zé tem o queixo duro mas seu coração é de manteiga. Nossos geradores estão funcionando em perfeita ordem, apesar das luzes e parte do aquecedor terem sidos sabotados. Seguia tudo de acordo quando inesperadamente algum vampiro oculto atacou um de nós, depois mais outra pessoa transformou, e muitas outras, até ficarmos completamente sitiados. Um dos engenheiros sugeriu que mudássemos a iluminação das instalações para ultravioleta, porque a radiação impediria a invasão dos monstros, quando a malignidade dos bichos destruíram a transmissão que energizava as lâmpadas e o aquecedor da ala leste.

– Entendo – assentiu o bispo entre estranhos sentimentos, tentando andar bem perto de seu robô e rezando em sua consciência – Sempre começa assim, inesperadamente...

– Vosso reverendíssimo deve confiar muito nesta... nesta... coisa mecatrônica que caminha. Não é?

– Número 12 sempre me acompanhou, é um anjo da guarda, minha garantia de sucesso na missão.

– Vossa reverência não acredita na proteção de Deus, o verdadeiro criador?

– Acredito com toda minha vida, porém a convicção da minha fé depende primeiro da garantia da minha integridade física, é por isto que tenho uma máquina como segurança.

– Decerto!

Os quatro, mais a máquina, seguiam tentando enxergar a pouca claridade das lanternas além do véu da escuridão que encobria seus interesses e temores imediatos.  Até que o religioso pergunta para Tito que continuava pálido e sem transparecer nenhum tipo sentimento:

– Fale-me um pouco desta Dona Magnólia.

– Ela é tudo de bom nesta colônia, – foi o sujeito com mandíbula de titânio quem respondeu – ela chefiava a cozinha, nos alegrava, era nossa enfermeira, psicóloga, mãe...

– E servia de esposa para todos, se é que me entende. Completou o velho Baxter ironicamente.

– Foi Magnólia quem implantou esta parte do meu corpo – ele apontou para seu queixo metálico – aconteceu há dois anos, após um desmoronamento que esmagou o trator que eu guiava. Por duas vezes ela salvou minha vida.

– E qual foi a segunda? Perguntou o bispo, fazendo a curva para outra larga galeria.

– Depois que eu sai da Terra não consegui me adaptar as novas condições, sofri muito pela clausura e quis até me matar... Chegamos, nossa gente está atrás desta porta.

Adentraram numa área que parecia um depósito de ferramentas. Os remanescentes recuaram, tumultuando um canto quando a porta abriu, temeram ainda mais a grande presença do Número 12, ficando no meio da sala uma maca baixa onde jazia um corpo feminino.

– Acalmem-se, este é nosso resgate. – falou o velho Baxter erguendo as mãos – todos sairemos daqui bem.

Bispo Derick parou ao lado da maca e observa que a mulher dava seus últimos suspiros. Ela parecia ser uma pessoa bonita se fosse mais saudável. A enferma notou que ao seu lado estava um homem de Deus e balbucia sem força palavras não compreendidas. O bispo sentou no chão para encostar sua cabeça na boca da enferma, até ouvir os sussurros de Magnólia que perguntava:

– Padre, onde está Deus? Se ele existe eu quero vê-lo.

O Bispo retira seu terço do pescoço e entrega a ela, Magnólia segura o crucifixo com suas últimas forças e o religioso responde:

– Eu desejaria dizer que Deus está em um lugar luminoso, no brilho mais intenso dentro do ponto mais cintilante do universo, mas isto não seria certo conosco que permanecemos no escuro e no frio. O instante chama para um equilíbrio de forças, entende? Nem trevas, muito menos glória. O excesso de calor consome tudo, como também nada se move no frio intento. Por isso Ele habita na perfeição do equilíbrio... Eu peço constante a presença de Deus ao meu lado, entretanto meus olhos carnais não veem nada além de destruição e perdas. Temos que acreditar somente, é isto que nos resta. Acreditar em nós, que somos aquilo que restou da Terra, estamos no centro porque emanamos o equilíbrio dos astros. Somos nós a raiz de toda existência viva deste intenso mundo sombrio. Por isto Deus está aqui, habitando em nosso gene. Nós somos sua imagem, como por milênios está nas escrituras.

A mulher apertou com mais força o crucifixo, os demais observam o ritual da extrema unção como se assistissem a outra inutilidade qualquer pois sabiam que não haveria tempo do bispo ungir todos quando os inimigos saírem de seus esconderijos. O religioso coloca seu ouvido nos lábios da mulher que tornam a mover, quando consegue escutar algo que parecia: “Agora eu tenho paz”, não deu para ouvir direito porque Magnólia inspirou pela última vez.

– Pronto, vamos sair daqui! Ordenou o bispo, disfarçando sua agonia.

A morte estava bem próxima deles e sedenta de sangue; o magrelo Tito, com rosto pálido, obstruía a única saída não querendo que ninguém partisse. Pelo contrário, os sons do lado de fora indicavam outros estranhos tentando entrar.  Caso fosse outra situação qualquer aquele raquítico sem expressão em frente à porta poderia ser facilmente empurrado até por uma mulher, porém os gritos das pessoas percebiam que ele era uma ameaça assassina. Tito olha fixamente para o religioso, sorri exibindo suas presas agudas e ataca, porém Número 12 mostrou-se pela primeira vez eficiente, segurou o sinistro pela fronte com seu robusto braço esquerdo e com a lança presa no direito atravessa seu coração, neutralizando o monstro infiltrado. Agora o guardião agia no automático, ele abriu a porta para conter o grupo de vampiros enquanto as 27 pessoas descambavam corredor afora.

Não é possível descrever precisamente uma batalha na escuridão, a eterna luta entre homens e pestialidade características de vampiros famintos, é como tentar enxergar a briga entre o bem e o mau antes à existência da luz. Direi que foi um massacre, ou melhor, um banquete sangrento que nutriu a ânsia que os demônios tinham de cravar seus dentes, rasgar a carne que protege a jugular e sugar completamente a energia liquida que irriga os seres. Um banho de sangue para os vampiros é o mesmo que chover no mais árido deserto e hidratar todos os vermes que estão ocultos debaixo da areia. É infactível escrever sobre uma chuva no deserto, assim como não posso narrar um ataque na falta de luz. Mesmo assim serei preciso em falar sobre o que as lanternas do Guardião 12 iluminou, luz essencial para mostrar sua própria peleja em defender o sacerdote presente, seu único bem segurado.

Estaca de madeira é a única arma capaz de matar vampiros, por isso que nos dois poderosos braços do grande robô tinham lanças que na verdade eram seringas em escala maiores que injetavam hastes pontiagudas de cedro dentro daquilo que seria o coração dos monstros.  Os inimigos foram ardilosos em poupar a vida do velho Baxter, com isto eles tinham que acompanhar suas passadas limitadas pela idade. Sem poder correr, o velho, o bispo, o Número 12 além das pessoas mais fracas ficaram para trás tendo que encarar com bravura o grupo desalmado que tinha sede. Não era questão de coragem, porque ninguém desejaria ter a coragem de aniquilar seu predador, mas sim questão de sobrevivência que o grupo da retaguarda lutava e morria aguerridamente.

A máquina era tão mortífera quanto os vampiros, com uma extrema sobrecarga ela trabalhava no seu limite, destruindo os terríveis assassinos que estavam ao alcance de seus braços. Sua armadura tinha a temperatura elevada, fazendo evaporar todo fluido maldito que respingava em sua carapaça metálica, ressaltando o forte odor do inferno. Cínico como sempre os demônios debochavam da capacidade de um Robô proteger todos que corriam aflitos pelas galerias, mas o Número 12 não pretendia resgatar a multidão de mineradores, apenas queria zelar a vida do Bispo Derick.

Já na plataforma, a poucos metros do limiar que adentrava na nave, as poucas pessoas tiveram que aguardar a chagada do Bispo para destravar a tranca eletrônica da escotilha. Tempo suficiente de tornar a chacina completa. Um sanguinolento brinde aos malditos. Número 12 abriu ala entre os monstros através de muita força bruta, golpes precisos dentro dos corações já mortos dos vampiros. Agora poucos cercavam as extremidades obscuras do corredor, uns dez vampiros permaneciam em pé, querendo mais sangue. Bispo Derick inseriu os códigos e a escotilha abriu, infelizmente não restara mais gente para embarcar, o resgate tinha sido em vão. Entregar os pontos, entregar a colônia para os vampiros, assim como a Terra foi entregue a tamanho esconjuro apocalíptico. Porém a missão não estava cumprida, o sacerdote deveria abrir mão de tudo – se fosse preciso – para que nenhum vampiro infiltrasse na astronave e chegasse a Estação Espacial do Governo.

Abençoado estava quem conseguiu atravessar a escotilha, somente Bispo Derick, além do homem com mandíbula de titânio e o velho Moreira Baxter embarcaram. Foi preciso alguém conter os demônios do lado de fora para que estes três afortunados entrassem no veículo, missão incumbida à máquina número 12, guardião que aceitou ser abandonado à própria sorte em prol da sobrevivência destes três.

Não restava muito ao guardião número 12 fazer, ele trabalhava com sobrecarga. Até seus sensores concisos detectar que o veículo alçou voo e não corria mais perigo, derrepente ele parou de lutar e desligou, muito pior, o robô foi desmontado pelos vampiros remanescentes.

A tensão dos três sujeitos permanecia, mesmo na segurança da astronave que arrebatava-os entre o árduo minério e todo mundo marciano. Bispo Derick sabia das dificuldades em resgatar os mineradores porém não tinha plena noção que tal ação seria a pior de sua vida. Onde existem indícios de ocorrer uma desgraça é porque este anuncio já está nítido no ambiente. O cheiro da morte que o bispo sentiu ao entrar na colônia, a fria escuridão, a sórdida perversão do inimigo, a inútil resistência e a paz que Magnólia sentiu ao falecer eram provas que os seres humanos não são mais aceito no universo. A humanidade é somente uma minúscula molécula desta volumosa nebulosa estelar que nos cerca. Era assim que o religioso pensava, algo não condizente as palavras ditas à Magnólia em seu leito de morte. Enquanto houver vida, a morte também estará presente. Foi assim que, dentro daquele veículo espacial, o pior dos desalmados revelou-se.

Enquanto o bispo refletia sobre tais aspectos e, próximo ao console da nave, narrava seu diário de bordo, o velho Baxter agarrou Zé mandíbula de titânio pelo pescoço e com um puxão arrancou parte da traqueia cibernética. O sangue pulava das artérias exposta igual uma fonte d'água, fazendo o bispo pular de seu acento, sem supor que ficaria pior. O velho Baxter abraçou sua vítima agonizante e deliciou-se sorvendo o líquido que brotava pela garganta da presa surpreendida.

Após sugar até a última gota, Baxter não era mais um sujeito idoso, ele tinha agora a aparência de uma pessoa de trinta anos.

– Então é você, o portador da maldição dos vampiros! Antecipou o religioso com a voz nervosamente conclusiva.

– Sim... Eu não queria que fosse assim, só que eu estava morrendo de fome, bebi somente uns goles e saiu melhor do que eu esperava. Preferia continuar escondido em Marte, lá as estrelas brilham mais, o Sol arde pouco e existem duas luas, mas meus últimos dias eram de escassez. Os tempos são mais difíceis, porém não tenho que me queixar pois já vivi o bastante para assistir aquilo que era apenas imaginado pelos homens, coisas que me fizeram sair da rotina. Eu vejo assim um novo rumo. Dentro deste veículo seguindo para Estação Espacial do Governo percebo que o legado do Homo Sapiens Sapiens será o de mero coadjuvante porque nós vampiros assumiremos o controle.

– Em nome de Cristo, isto nunca acontecerá. – disse o bispo encurralado entre o monstro e os painéis de controle da nave, com o gravador ainda ligado e segurando o botão do microfone ele continuo – Minha prioridade aqui não era resgatar aqueles mineradores e sim localizar você para exterminá-lo.

– Ha ha ha ha... Estas são suas últimas palavras?

– Não!

– E qual é sua mensagem de despedida, antes de ficar semelhante a mim, antes que eu seja teu novo senhor e criador?

Bispo Derick tentou manter-se firme em sua fé, discretamente esbarrou em um botão e berrou:

– Acionar todas as unidades!!!

Imediatamente os gabinetes foram erguidos, de dentro saíram onze unidades de guardiões, todas idênticas ao Número 12. Os brutamontes robóticos marcharam até próximos do religioso e bradaram:

– Insira a senha de comando.

– Deus esteja conosco...

Antes do bispo ter seu pescoço mordido e o sangue tragado, ele abençoou as máquinas. Com intenso ímpeto os onze guardiões precipitaram no ataque contra a danosa ameaça.


(imagem Robotcop by Starry John)

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