• MACHADO DE ASSIS

    Não é a toa que ele também era chamado de ''O Bruxo de Cosmo Velho''! Leia os textos que envolvem mistério, misticismo e suspense deste homem que estava a frente de seu tempo.

  • O QUARTO VERMELHO

    Risquei um fósforo em movimento, passando pelos castiçais da cornija na lareira. Minhas mãos tremiam tanto que por duas vezes errei a lixa na lateral da caixa. Assim como o manto da escuridão que me cobre mais uma vez, duas velas na parte remota da janela foram eclipsadas [...]

  • A NOITE (LA NUIT)

    Eu amo a noite com paixão. Amo como se ama o seu país ou sua amante, um amor instintivo, profundo, invencível. Eu a amo com todos os meus sentidos, com meus olhos que vêem, com o meu nariz que respira, com os meus ouvidos que escutam o silêncio e as trevas que minha carne acaricia [...]

  • HUMBERTO DE CAMPOS

    Ele mostrou a insana face psicológica do ser humano e ainda despertam medo, apesar de ser um autor brasileiro do inicio do século XX.

Manequim - Curta de Terror

Ler Contos de Terror

| Manequim - Curta de Terror | 
 Até que ponto um objeto inanimado pode ficar estático lhe observando?



Filmar de Perto - Curta de Terror

Ler Contos de Terror

| Filmar de Perto (Cam Closer) - Curta de Terror |
Como sempre ela queria postar a sua refeição quando a câmera passou a lhe mostrar sua casa por outro ângulo.



Luzes Apagadas - Curta de Terror

Ler Contos de Terror

| Luzes Apagadas (Lights Out) - Curta de terror | 
Evite apagar as luzes quando for dormir.





CRISE NO CAOS

Ler Contos de Terror

Uma história com tema apocalipse zumbi, bem ao estilo The Walking Dead por Francisco Farias Jr.


– Reginaldo, você ainda me ama?

Por que ela cismava em perguntar isto? Toda humanidade padecendo no juízo final e ela sempre egoísta, preocupava-se apenas com sua carência. A cada duas horas ela fazia a mesma pergunta, querendo uma reafirmação para alimentar seu ego presunçoso. Eu já não conseguia mais fechar meus olhos, sempre vinha à imagem daquelas centenas de corpos apodrecidos vindo por todas as direções, marchando sedentos, gemendo, implorando um trago do meu sangue. Dormir então... Há três dias que arranquei esta palavra do meu vocabulário, eu vivia uma vigília constante, minutos de cochilos interrompidos por terríveis pesadelos. Era melhor assim, em momentos de privações não podemos ter regalias nem fechar os olhos muito tempo. Era meu dever fiscalizar a tripulação, olhar até a linha do horizonte procurando por sobreviventes, vigiar o momento certo que o vento soprava para içar velas e poupar óleo diesel. Aquela megera aproveitando o Sol que radiava lindamente no contorno de Ilha Bela, lugar de refugio e descanso agora também atingido pela morte. Eu observava tudo, inclusive as repugnantes banhas de minha mulher esparramadas sobre a proa do barco, o horror não era maior porque eu proibi que fizesse top-less. Parecia que ela ignorava a merda do apocalipse a nossa volta, será que haveria local seguro em terra firme? Minha motivação era encontrar um lugar com remanescente saudáveis, não tinha mais forças para carregar meu fardo sozinho, estava no meu limite. Eu olhava para os dados do GPS do computador náutico e os números saltavam da tela, os algarismos separavam-se em dois. Minhas mãos tremiam exauridas enquanto eu segurava o leme com firmeza para cessar meu frenesi. Quando a voz simulando sensualidade grasna outra vez:

– Vamos Reginaldo, diga. Se você ainda me ama peço para que tenha paciência com as crianças. Esta é nossa viajem em família, veja por este ângulo.

– Família? Encare a realidade Salete. Tem anos que Gabriel deixou de ser criança, eu o aceitaria mesmo ele sendo um vigarista, mas nem isto ele é agora. Foi o vício dele que trouxe a ruína para junto de nós. – fiz uma pausa para dar outro trago na garrafa de uísque que Gabriel protegera com a própria vida, senti o liquido descer suave e metade da garrafa já atenuavam as amarguras que sentia. Depois do gole coloquei a garrafa de lado e tornei a vomitar mais revolta contra minha esposa – Beatriz sim era minha menininha, mas ela deixou de existir. Agora só restam dois corpos amarrados que deveriam apodrecer, porém eles cismam em continuar caminhando, querendo devorar nós dois.

– Temos que protegê-los, um médico dirá a melhor forma de tratá-los.

– Não tem tratamento Salete, não tem remédios, não tem nem mais médicos para descobrir uma cura! – bebi de novo o uísque pelo gargalo até sua última gota, lancei a garrafa ao mar para continuar gritando com a megera esperançosa. – como o próprio Gabriel disse: Nossa sociedade acabou, porém você ignora tudo para pintar as unhas de uma morta-viva amarrada na cadeira, se bronzeia e quer discutir a relação! O que vamos fazer depois, um amorzinho para selar nossa união?

– Deixa de ser rabugento – ela disse enquanto ria – adultos que praticam sexo vivem mais.

– Maravilha! Sua teoria explica a extinção da humanade, eles estão morrendo por falta de sexo. Pelo menos discutir com você me mantém acordado. Temos que velejar até Cuba. Aquela ilha isolada resistiu, tenho certeza.

– Fernando de Noronha, acho que nós devemos ancorar lá primeiro. Eu sempre quis conhecer Fernando de Noronha.

– Não vou mais agir de acordo com seus conselhos. Isto não é turismo! Agora levante que está escurecendo, troque de roupa para enfrentar a noite. Prepare um mingau com aquela caixa de leite e as espigas de milho senão eu caio de fome.

– Tudo bem, mas reflita sobre minha ideia. Fernando de Noronha também é distante do continente.

Ela desceu as escadas do convés quando ouvi os urros esganados dos monstros ao notarem a presença de Salete no pavimento inferior. Gabriel era quem fazia mais barulhos se debatendo para livrar das amarras, eu tenho certeza que falhei ao educá-lo. Hoje refletindo melhor vejo que ele teve uma péssima criação; não por minha causa porque juro que quis impor limites porém sebe como são as mães, sempre querendo relevar, dar uma nova chance, cedendo às manhas dos filhos. Gabriel, eu até quis batizá-lo com outro nome, sempre achei Gabriel nome de criança levada. Aquele garotinho tão traquina no passado não é mais ingênuo; com seus vinte anos ignora todos meus comandos para nossa própria sobrevivência. Nós planejamos com antecedência a partida, mesmo assim no dia marcado para ser nossa fuga o garoto desapareceu. A mãe ficou desesperada em vão, chorava prostrada pelos cômodos, fazendo barulho e atraindo mais mortos-vivos que acumulavam na frente de casa, gritava, exigia que eu fosse atrás do garoto. Quando pensávamos que nosso filho estava morto eis que surge no meio da noite sangrando porque pedaços de seu braço tatuado tinham sido arrancados a dentadas. Ele carregando duas mochilas, uma repleta de maços de cigarros pendia pelo peso de duas garrafas de uísque, a outra bolsa ele tentou esconde porém era nítido notar que dentro havia substâncias ilegais. Seu vício atrapalhou nossos planos. Tentei argumentar, para quê? Gabriel da forma mais sínica possível me disse entre gemidos de dores que não estava cometendo nenhuma ilegalidade.

– Como assim? – Eu indaguei confuso.

– Não existe mais governo para manter o Estado em ordem, então aquilo que o senhor chamaria de leis agora não passam de papéis entulhados. Hummm...

– Você foi atacado por mortos-vivos, feriram os dois braços, está ouvindo sua mãe berrando? Ela quer invadir uma farmácia atrás de remédios que não farão efeito e você fazendo pouco caso da gravidade das coisas! Nossas vidas valem menos que duas mochilas com drogas?

– Arrrgh... Não esquenta paizão, vai valer a pena. Hummm...

Minha menininha não queria sair de dentro do guarda-roupa, só a hipótese dela se deparar com um daqueles monstros comedores de carne já fazia todas as vértebras da minha garotinha paralisar. O cheiro forte que vinha lá de fora, odor cadavérico misturado com feridas infeccionadas, era suficiente para sacudir todos os ossinhos daquele frágil corpo infantil. Beatriz sentia medo de chorar e atrair mais bichos, porém ela saiu de seu esconderijo para pedir silêncio. Eu falhei aí, deveria esperar um pouco mais para Beatriz perder definitivamente seu medo. Uma pena porque minha decisão, junto com sua fraqueza a levou para morte.

Fuga? Não considero nossa retirada como uma fuga. Eu portava um facão cego, na outra mão tinha um remo que usei para empurrar os bichos. Gabriel quente de febre arrastava suas duas mochilas. Beatriz vestia um colete salva vidas por cima da roupa, não conseguia correr muito e toda hora eu gritava seu nome para ela sair do pavoroso transe. Minha mulher carregava um bote inflável que utilizava como escudo, – uma das poucas coisas que restou no supermercado saqueado – ela mal aguentava com o peso do objeto e parava cada trinta metros clamando por um pouco de ar. Eu era quem estava sem fôlego porque lutava solitário contra dezenas de zumbis. Parecia inútil roubar um carro porque todas as vias estavam bloqueadas por veículos abandonados. Optamos seguir correndo sem chamar atenção até a orla e piratear o primeiro barco abandonado. Muitíssimo exausto eu estava no meu limite, mesmo assim tive de encontrar forças para remar nosso bote até um veleiro ocupado por dois mortos-vivos.

Graças a Deus por haver poucas ondas, era um mar calmo. É irônico dar graças ao criador no juízo final, minha família lutava contra o designo celeste, pisávamos sobre terra podre e improdutiva. Eu olhei para o céu vazio, o mesmo céu azul que dias atrás estava decorado por pássaros, pipas, asas deltas e pensei: “A mortandade está em toda parte, mas que merda de coisa é esta Deus?”

Eu embarquei primeiro, atraindo os dois bichos para minha direção, consegui jogá-los na água quebrando meu remo na cabeça do último que era mais resistente. Achei um arpão que utilizei como arma para explorar a embarcação antes de colocar minha família a bordo. Em nenhum momento quis trazes Gabriel para o veleiro porque cedo ou tarde ele também viraria um daqueles monstros, porém Salete com sua histeria materna exigiu de forma arbitraria para amarrar uma corda no corpo dele e içá-lo. Pobre Beatriz, ela deveria procurar um esconderijo dentro de algum compartimento ou no espaço reservado ao motor, mas ela preferiu ficar dando assistência ao sofrimento do irmão. Eu estava colocando o barco no seu curso quando ele transformou, atacando minha filhinha paralisada de medo. Agora tínhamos dois mortos-vivos amarrados em cadeiras. Eu implorei para jogá-los ao mar, infelizmente o instinto materno agiu de novo...

– Que merda de coisa é esta Deus?

Eu dei um sobressaltado com os gritos de Salete, aquela louca havia desamarrados os zumbis? A noite chegou cobrindo com sua escuridão todo derredor, tamanha eram as trevas estibordo que não sabia delinear onde terminava o oceano e começada o firmamento. Assustei-me com a grande quantidade de estrelas refletidas na maré turva, porém foram os gritos de minha esposa que me fizeram reagir. Desci ao encontro de Salete empunhando o arpão, não precisei utilizar a arma porque os dois mortos-vivos permaneciam amarrados em suas cadeiras, mas minha mulher tinha sangue nas mãos que estancava com um pano. Os monstros rosnavam sedentos, querendo sorver um pouco do liquido rubro que manchava o curativo improvisado de Salete.

– Que merda de coisa é esta Salete? Como se machucou? – Perguntei confuso.

– O Gabriel mordeu meu dedo!

– Como? Eu falei para não tocar neles?

– Eu sei, mas ele estava tão agitado. Por favor, não se livra deles. – entre choro de humilhação continuou – Ele estava agitado... Pensei que fosse uma daquelas crises de abstinência... Enrolei um cigarro com aquela coisa que estavam dentro da mochila. Eu cheguei perto e acreditei que meu filho abria a boca para segurar o cigarro entre os beiços, porém... um descuido foi suficiente para ele mastigar meu dedo indicador.

– Como você foi burra Salete! – mirei o arpão no meio da testa de Gabriel e atirei, depois gritos desesperados da mãe, o monstro ficou estático sem emitir nenhum sinal de vida. Então prossegui – estas coisas não são mais seus filhos. Gabriel foi mordido e virou um monstro, depois ele atacou Beatriz que também transformou, agora é tarde para você acreditar em mim.

– Diga Reginaldo, diga que você ainda nos ama e vai ficar com a gente.

– Eu sinto por você Salete, não se iluda! Você vai virar um deles, mas antes me faça um favor: Morra e me deixa em paz!!!

Um alívio caia sobre meus ombros, um suspiro para baixar à guarda, deixar rolar as primeiras lágrimas de remorso. Deveria ter agido sozinho como um ditador autoritário, minha família estaria me odiando em vida! Fiquei em duvida quem jogar ao mar por último porque eu estava em debito com os três. Beatriz me ensinou que precisamos de mais tempo para nos fortalecer; Gabriel (com as duas garrafas de uísque) mostrou que não vale a pena encara a viva com sobriedade, já Salete tinha razão, eu deveria primeiro velejar até Fernando de Noronha, buscar todas as possibilidades até o caminho de Cuba.

– Oh Deus eu amava minha família, eles valiam tudo na terra!

(13/10/2014)

Um Cavaleiro no Ceu

Ler Contos de Terror

Um Cavaleiro no Céu por Ambrose Bierce


Por uma tarde ensolarada do outono de 1861, um soldado jazia deitado em meio a uma moita de loureiros junto a certa estrada no oeste de Virgínia. Estava deitado de bruços, as pontas dos pés tocando o chão, a cabeça apoiada no antebraço esquerdo. A mão direita, estendida, segurava frouxamente o rifle. Porém, dada a disposição algo metódica de seus membros, e um vago movimento rítmico da cartucheira no dorso do cinturão, se poderia pensar que estivesse morto. Dormia em seu posto de vigilância. No entanto, se detectado, morreria imediatamente, sendo a morte a penalidade legal para esse crime.

A moita de loureiros na qual jazia o criminoso situava-se no ângulo de uma estrada que, após ascender a pino em direção ao sul até aquele ponto, dobrava bruscamente para oeste, correndo sobre a crista por talvez uma centena de jardas. Daí virava para o sul outra vez e ziguezagueava para baixo através da floresta. Na saliência daquele segundo ângulo havia uma grande rocha achatada, que se projetava para o norte por sobre o vale profundo de onde subia a estrada. A rocha coroava um alto precipício: uma pedra atirada de lá cairia por uns bons mil pés antes de atingir o topo dos pinheiros. O ângulo onde se encontrava o soldado ficava na outra ponta do precipício. Se estivesse desperto, teria uma ampla visão não só do curto trecho de estrada e do rochedo eminente, mas também de toda a face do abismo por baixo dele. Poderia ter uma vertigem ao olhar.

Árvores cobriam a paisagem por toda parte, falhando apenas ao pé do vale, ao norte, onde havia um pequeno descampado; através dele fluía um regato que mal se avistaria da orla do vale. Essa área descoberta pareceria pouco maior que um pátio de entrada comum, mas tinha de fato muitos acres de extensão. Seu verde era mais vivo do que o da floresta circundante. Para além dele erguia-se uma linha de gigantescos despenhadeiros, semelhantes àquele em que nos postamos agora para observar essa cena selvagem, e em meio a eles a estrada, de algum modo, conseguia galgar até o cimo. Com efeito, a configuração do vale era tal que, deste ponto de observação, pareceria inteiramente enclausurado; e se poderia perguntar de que maneira a mesma estrada que levava para fora dele penetrava nele, e de onde vinham e para onde iam as águas do regato que atravessavam a campina a mais de mil pés abaixo.

Cenário algum seria tão selvagem e difícil, mas os homens farão dele um teatro de guerra. Ocultos na floresta, ao pé daquela ratoeira militar, onde meia centena de homens guarnecendo as saídas teriam obrigado um exército inteiro a se render por inanição, havia cinco regimentos da Infantaria Federal. Tinham marchado durante todo o dia e durante toda a noite anterior e agora descansavam. Ao cair da noite retornariam à estrada, subiriam até o lugar onde sua sentinela irresponsável estava dormindo e, descendo pelo outro lado, se lançariam sobre o acampamento inimigo por volta da meia-noite. Depunham esperança na surpresa, pois a estrada conduzia à retaguarda do acampamento. Em caso de fracasso, sua posição teria sido perigosa em extremo. E certamente falhariam, se algum acidente ou vigilância notificasse o inimigo a respeito desse movimento.

A sentinela adormecida na moita de loureiros era um jovem de Virgínia, chamado Carter Druse. Era filho único de pais ricos e tinha desfrutado das facilidades, do cultivo e do alto padrão de vida que a riqueza e o gosto são capazes de proporcionar na região montanhosa a oeste de Virgínia. Sua casa ficava a poucas milhas do local onde ele estava agora. Certa manhã ele se levantou da mesa, após o café, e disse, em tom compenetrado e grave:

– Pai, um regimento da União chegou a Grafton. Vou me juntar a ele.

O pai ergueu a cabeça leonina, olhou em silêncio para o filho durante um momento e respondeu:

– Bem, vá, meu senhor. E, aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever. A Virgínia, para a qual você é um traidor, deve passar sem você. Se vivermos até o fim da guerra, falaremos mais tarde sobre o assunto. Sua mãe, como o médico informou a você, se encontra numa situação bastante crítica. No máximo, poderá estar entre nós por mais algumas semanas, mas esse tempo é precioso. Seria melhor não perturbá-la.

Então Carter Druse, fazendo uma reverência ao pai, que correspondeu à saudação com uma cortesia altiva em que se ocultava um coração partido, deixou o lar de sua infância para se alistar. Pela consciência e pela coragem, por atos de devoção e de audácia, ele logo se tornou respeitado entre os camaradas e os oficiais. E era a essas qualidades e a certo conhecimento da região que devia agora ter sido selecionado para a presente e perigosa tarefa na posição extrema. Entretanto a fadiga foi mais forte que sua resolução, e ele adormeceu. Que bom ou mau anjo veio num sonho despertá-lo de seu estado criminoso, ninguém saberá. Sem o menor movimento, sem um som, no profundo e lânguido silêncio da tarde, algum mensageiro invisível do destino tocou com o dedo os olhos de sua consciência; sussurrou no ouvido de seu espírito a misteriosa palavra do despertar que nenhum lábio humano jamais pronunciou, nenhuma memória humana jamais recordou. Ele levantou devagar a fronte, que se apoiara no braço, e olhou através da camuflagem dos ramos de loureiro, fechando instintivamente a mão sobre a coronha do rifle.

Sua primeira sensação foi a de um extremo deleite artístico. Num portentoso pedestal, o precipício – imóvel na extremidade da rocha superior e nitidamente recortado contra o céu –, via-se uma estátua eqüestre de impressionante dignidade. A figura do homem completava a figura do cavalo, rígida e marcial, mas com o repouso de um deus grego esculpido no mármore que limita a sugestão de atividade. O traje cinzento se harmonizava com o fundo aéreo; o brilho metálico dos equipamentos e dos jaezes era amenizado e suavizado pela sombra; a pele do animal não tinha pontos de luz excessiva. Uma carabina drasticamente amputada estava presa ao cocuruto da sela, segura em seu lugar pela mão direita que a sustinha pelo gatilho; a mão esquerda, segurando a rédea, estava invisível. Silhuetado contra o céu, o perfil do cavalo se recortava com a nitidez de um camafeu; olhava através das alturas em direção aos precipícios lá adiante. O rosto do cavaleiro, voltado para outra banda, deixava entrever apenas um princípio de têmpora e de barba. Olhava para baixo até o fundo do vale. Aumentado pela sua elevação contra o céu e pela sensação patente, que o soldado experimentou, da grandeza de um inimigo próximo, o grupo pareceria de um tamanho heróico, quase colossal.

Por um instante Druse teve uma sensação estranha, meio indistinta, de ter dormido até o fim da guerra e de estar olhando para um nobre trabalho de arte erguido sobre aquele píncaro para comemorar os feitos de algum passado heróico do qual ele teria sido um participante inglório. A sensação foi dispersada por um sutil movimento do grupo: o cavalo, sem mover as patas, afastara o corpo ligeiramente da borda, sendo que o homem permaneceu imóvel como antes. Cada vez mais desperto e consciente da situação, Druse apertou a coronha de seu rifle contra o queixo e enfiou com cuidado o cano por entre os arbustos. Armou o cão, olhando através da mira, e visou um ponto vital no peito do cavaleiro. Um toque no gatilho, e tudo estaria bem com Carter Druse. Nesse instante, o cavaleiro voltou a cabeça e os olhos na direção de seu adversário oculto – pareceu fitar mesmo em seu rosto, em seus olhos, em seu coração bravo e apaixonado.

Será tão difícil matar um inimigo na guerra – um inimigo que surpreendeu um segredo vital à segurança de alguém e de seus camaradas – um inimigo mais formidável pelo que sabe do que todo um exército por seus números? Carter Druse empalideceu: seus membros tremeram, falharam; e ele viu o grupo escultural à sua frente, como figuras negras que subiam, caíam, oscilavam em arcos de círculos sobre um céu de sonho. Sua mão se afastou da arma, sua cabeça caiu lentamente até que o rosto repousou sobre as folhas em meio às quais ele jazia. A intensidade da emoção quase fez desmaiar esse soldado corajoso e robusto.

Não durou muito. No momento seguinte seu rosto se ergueu da terra, suas mãos retornaram ao rifle, seu indicador buscou o gatilho. Mente, coração e olhos estavam limpos, conscientes, e a razão era clara. Não havia esperança de capturar aquele inimigo. Alarmá-lo teria sido apenas remetê-lo de imediato ao acampamento com sua notícia fatal. O dever do soldado era estrito: o homem tinha de ser alvejado por emboscada – sem aviso, sem preparação espiritual, quando muito com uma prece tácita, antes de ser liquidado. Mas não – há uma esperança: ele pode não ter descoberto nada, talvez esteja apenas admirando a sublimidade do cenário. Se permitido, daria meia volta e galoparia descuidado em direção ao lugar de onde viera. Com certeza, será possível julgar, no instante de sua retirada, o quanto saberá. Pode até ser que a fixidez de sua atenção – Druse voltou a cabeça e olhou para as profunduras lá embaixo, como quem olha da superfície para o fundo de um mar translúcido. Viu galgar através da campina verdejante uma linha sinuosa de figuras de homens e de cavalos – algum comandante imbecil estaria permitindo aos soldados de sua escolta dar água aos animais à vista aberta e plena de uma dúzia de picos!

Druse desviou os olhos do vale e os fixou outra vez sobre o grupo de homem e cavalo no céu, e outra vez através da mira do rifle. Mas desta vez seu alvo estava no cavalo. Em sua memória, como um mandado divino, soaram as palavras de seu pai quando partiu: “Aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever.” Estava calmo agora. Seus dentes se fecharam com firmeza, mas não rigidamente. Seus nervos estavam tranqüilos como os de um bebê que adormeceu; sequer um tremor agitava um único músculo de seu corpo. Sua respiração, suspensa até então no ato de mirar, tornou-se regular e lenta. O dever prevaleceu. O espírito disse ao corpo: “Paz, fique quieto.” Atirou.

Um oficial da Força Federal, o qual, num espírito de aventura ou de busca de conhecimento, tinha deixado o bivaque escondido no vale e, um tanto a esmo, abrira caminho até a extremidade mais baixa de um pequeno espaço aberto ao pé do precipício, considerava o que teria a ganhar se levasse mais longe a exploração. À distância de um quarto de milha em frente, mas aparentemente ao alcance de uma pedrada, elevava-se da franja dos pinheiros a gigantesca face da rocha, atingindo uma altura tal que lhe daria vertigem olhar para cima em direção à linha escarpada e aguda que se recortava contra o céu. Seu perfil se apresentava claro e vertical contra o azul do céu, indo até um ponto mais abaixo, acompanhado das colinas distantes, pouco menos azuis, e daí seguia até os topos das árvores na sua base. Levantando os olhos para a estonteante altitude do cimo, o oficial teve uma visão estarrecedora – um homem montado a cavalo descia para o vale através do ar!

O cavaleiro mantinha-se a prumo, bem ao modo militar, sentado firme na sela, segurando com força as rédeas para controlar sua montaria num salto tão impetuoso. De sua cabeça desnuda flutuavam longos cabelos, saindo dela como fumaça. As mãos estavam ocultas pela nuvem da crina levantada. O corpo do animal permanecia nivelado, como se as quatro patas encontrassem o apoio da terra. Seus movimentos eram como os de um galope selvagem, mas cessaram enquanto o oficial olhava, todas as patas lançando-se para a frente, como no ato de pousar após um salto. Mas isso era um vôo!

Cheio de espanto e terror devido à aparição do cavaleiro no céu – e quase se acreditando já o escriba escolhido de algum novo Apocalipse –, o oficial se viu subjugado pela intensidade de suas emoções. Suas pernas falharam, e ele caiu. Quase no mesmo instante, ouviu o ruído dos galhos se partindo – um som que não produziu eco –, e tudo se aquietou.

O oficial se levantou, tremendo. A sensação familiar de uma canela esfolada lhe restituiu a faculdades ofuscadas. Recompondo-se, correu para baixo, afastando-se do sopé do penhasco, para um ponto onde esperava encontrar o homem, o que não adiantou. No instante fugidio de sua visão, sua imaginação fora de tal maneira arrebatada pela graça, facilidade e intencionalidade aparente da maravilhosa performance que não lhe ocorreu que a linha de marcha da cavalgada aérea era diretamente para baixo e que os objetos de sua busca poderiam ser encontrados bem ao pé do penhasco. Meia hora depois ele retornou ao acampamento.

Esse oficial era um sábio, que conhecia muito bem a hora de não contar uma verdade incrível. Não disse nada sobre o que vira. Mas, quando o comandante lhe perguntou se, em sua batida, descobrira qualquer coisa de vantajosa para a expedição, respondeu:

– Sim, senhor, não existe estrada para este vale a partir do sul.

O comandante, que bem sabia, sorriu.

Depois de atirar, o soldado Carter Druse recarregou o rifle e retomou a vigilância. Mal se passaram dez minutos, e um sargento dos federais engatinhou com cautela até ele. Druse não se voltou, nem olhou para ele, mas permaneceu imóvel, sem dar sinal de reconhecimento.

– Você atirou? – murmurou o sargento.

– Sim.

– Em quê?

– Num cavalo. Estava sobre aquela pedra – bem ali. Mas não está mais lá. Voou para o precipício.

A cara do homem estava branca, mas ele não mostrava outros sinais de emoção. Tendo respondido, desviou os olhos e não disse mais nada. O sargento não entendeu.

– Olhe aqui, Druse – disse, depois de um silêncio –, é melhor não fazer mistério. Ordeno que dê o relato. Havia alguém sobre o cavalo?

– Sim.

– Então?

– Meu pai.

O sargento se levantou e se afastou.

– Deus do céu! – disse.

(Tradução de Renato Suttana)

  • RSS
  • Perfil do Editor
  • Facebook
  • Google +
  • Twitter
  • YouTube

Pesquisar