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  • O QUARTO VERMELHO

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  • HUMBERTO DE CAMPOS

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O Desejo de Saiuri - Curta de suspense

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Homero é um homem solitário de meia idade que resolve se encontrar com Saiuri, uma prostituta de luxo. A única coisa que ele queria era uma noite de prazer e desejo, mas a situação sai do seu controle após um evento inusitado.



Manequim - Curta de Terror

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Filmar de Perto - Curta de Terror

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Luzes Apagadas - Curta de Terror

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Evite apagar as luzes quando for dormir.



CRISE NO CAOS

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Uma história com tema apocalipse zumbi, bem ao estilo The Walking Dead por Francisco Farias Jr.


– Reginaldo, você ainda me ama?

Por que ela cismava em perguntar isto? Toda humanidade padecendo no juízo final e ela sempre egoísta, preocupava-se apenas com sua carência. A cada duas horas ela fazia a mesma pergunta, querendo uma reafirmação para alimentar seu ego presunçoso. Eu já não conseguia mais fechar meus olhos, sempre vinha à imagem daquelas centenas de corpos apodrecidos vindo por todas as direções, marchando sedentos, gemendo, implorando um trago do meu sangue. Dormir então... Há três dias que arranquei esta palavra do meu vocabulário, eu vivia uma vigília constante, minutos de cochilos interrompidos por terríveis pesadelos. Era melhor assim, em momentos de privações não podemos ter regalias nem fechar os olhos muito tempo. Era meu dever fiscalizar a tripulação, olhar até a linha do horizonte procurando por sobreviventes, vigiar o momento certo que o vento soprava para içar velas e poupar óleo diesel. Aquela megera aproveitando o Sol que radiava lindamente no contorno de Ilha Bela, lugar de refugio e descanso agora também atingido pela morte. Eu observava tudo, inclusive as repugnantes banhas de minha mulher esparramadas sobre a proa do barco, o horror não era maior porque eu proibi que fizesse top-less. Parecia que ela ignorava a merda do apocalipse a nossa volta, será que haveria local seguro em terra firme? Minha motivação era encontrar um lugar com remanescente saudáveis, não tinha mais forças para carregar meu fardo sozinho, estava no meu limite. Eu olhava para os dados do GPS do computador náutico e os números saltavam da tela, os algarismos separavam-se em dois. Minhas mãos tremiam exauridas enquanto eu segurava o leme com firmeza para cessar meu frenesi. Quando a voz simulando sensualidade grasna outra vez:

– Vamos Reginaldo, diga. Se você ainda me ama peço para que tenha paciência com as crianças. Esta é nossa viajem em família, veja por este ângulo.

– Família? Encare a realidade Salete. Tem anos que Gabriel deixou de ser criança, eu o aceitaria mesmo ele sendo um vigarista, mas nem isto ele é agora. Foi o vício dele que trouxe a ruína para junto de nós. – fiz uma pausa para dar outro trago na garrafa de uísque que Gabriel protegera com a própria vida, senti o liquido descer suave e metade da garrafa já atenuavam as amarguras que sentia. Depois do gole coloquei a garrafa de lado e tornei a vomitar mais revolta contra minha esposa – Beatriz sim era minha menininha, mas ela deixou de existir. Agora só restam dois corpos amarrados que deveriam apodrecer, porém eles cismam em continuar caminhando, querendo devorar nós dois.

– Temos que protegê-los, um médico dirá a melhor forma de tratá-los.

– Não tem tratamento Salete, não tem remédios, não tem nem mais médicos para descobrir uma cura! – bebi de novo o uísque pelo gargalo até sua última gota, lancei a garrafa ao mar para continuar gritando com a megera esperançosa. – como o próprio Gabriel disse: Nossa sociedade acabou, porém você ignora tudo para pintar as unhas de uma morta-viva amarrada na cadeira, se bronzeia e quer discutir a relação! O que vamos fazer depois, um amorzinho para selar nossa união?

– Deixa de ser rabugento – ela disse enquanto ria – adultos que praticam sexo vivem mais.

– Maravilha! Sua teoria explica a extinção da humanade, eles estão morrendo por falta de sexo. Pelo menos discutir com você me mantém acordado. Temos que velejar até Cuba. Aquela ilha isolada resistiu, tenho certeza.

– Fernando de Noronha, acho que nós devemos ancorar lá primeiro. Eu sempre quis conhecer Fernando de Noronha.

– Não vou mais agir de acordo com seus conselhos. Isto não é turismo! Agora levante que está escurecendo, troque de roupa para enfrentar a noite. Prepare um mingau com aquela caixa de leite e as espigas de milho senão eu caio de fome.

– Tudo bem, mas reflita sobre minha ideia. Fernando de Noronha também é distante do continente.

Ela desceu as escadas do convés quando ouvi os urros esganados dos monstros ao notarem a presença de Salete no pavimento inferior. Gabriel era quem fazia mais barulhos se debatendo para livrar das amarras, eu tenho certeza que falhei ao educá-lo. Hoje refletindo melhor vejo que ele teve uma péssima criação; não por minha causa porque juro que quis impor limites porém sebe como são as mães, sempre querendo relevar, dar uma nova chance, cedendo às manhas dos filhos. Gabriel, eu até quis batizá-lo com outro nome, sempre achei Gabriel nome de criança levada. Aquele garotinho tão traquina no passado não é mais ingênuo; com seus vinte anos ignora todos meus comandos para nossa própria sobrevivência. Nós planejamos com antecedência a partida, mesmo assim no dia marcado para ser nossa fuga o garoto desapareceu. A mãe ficou desesperada em vão, chorava prostrada pelos cômodos, fazendo barulho e atraindo mais mortos-vivos que acumulavam na frente de casa, gritava, exigia que eu fosse atrás do garoto. Quando pensávamos que nosso filho estava morto eis que surge no meio da noite sangrando porque pedaços de seu braço tatuado tinham sido arrancados a dentadas. Ele carregando duas mochilas, uma repleta de maços de cigarros pendia pelo peso de duas garrafas de uísque, a outra bolsa ele tentou esconde porém era nítido notar que dentro havia substâncias ilegais. Seu vício atrapalhou nossos planos. Tentei argumentar, para quê? Gabriel da forma mais sínica possível me disse entre gemidos de dores que não estava cometendo nenhuma ilegalidade.

– Como assim? – Eu indaguei confuso.

– Não existe mais governo para manter o Estado em ordem, então aquilo que o senhor chamaria de leis agora não passam de papéis entulhados. Hummm...

– Você foi atacado por mortos-vivos, feriram os dois braços, está ouvindo sua mãe berrando? Ela quer invadir uma farmácia atrás de remédios que não farão efeito e você fazendo pouco caso da gravidade das coisas! Nossas vidas valem menos que duas mochilas com drogas?

– Arrrgh... Não esquenta paizão, vai valer a pena. Hummm...

Minha menininha não queria sair de dentro do guarda-roupa, só a hipótese dela se deparar com um daqueles monstros comedores de carne já fazia todas as vértebras da minha garotinha paralisar. O cheiro forte que vinha lá de fora, odor cadavérico misturado com feridas infeccionadas, era suficiente para sacudir todos os ossinhos daquele frágil corpo infantil. Beatriz sentia medo de chorar e atrair mais bichos, porém ela saiu de seu esconderijo para pedir silêncio. Eu falhei aí, deveria esperar um pouco mais para Beatriz perder definitivamente seu medo. Uma pena porque minha decisão, junto com sua fraqueza a levou para morte.

Fuga? Não considero nossa retirada como uma fuga. Eu portava um facão cego, na outra mão tinha um remo que usei para empurrar os bichos. Gabriel quente de febre arrastava suas duas mochilas. Beatriz vestia um colete salva vidas por cima da roupa, não conseguia correr muito e toda hora eu gritava seu nome para ela sair do pavoroso transe. Minha mulher carregava um bote inflável que utilizava como escudo, – uma das poucas coisas que restou no supermercado saqueado – ela mal aguentava com o peso do objeto e parava cada trinta metros clamando por um pouco de ar. Eu era quem estava sem fôlego porque lutava solitário contra dezenas de zumbis. Parecia inútil roubar um carro porque todas as vias estavam bloqueadas por veículos abandonados. Optamos seguir correndo sem chamar atenção até a orla e piratear o primeiro barco abandonado. Muitíssimo exausto eu estava no meu limite, mesmo assim tive de encontrar forças para remar nosso bote até um veleiro ocupado por dois mortos-vivos.

Graças a Deus por haver poucas ondas, era um mar calmo. É irônico dar graças ao criador no juízo final, minha família lutava contra o designo celeste, pisávamos sobre terra podre e improdutiva. Eu olhei para o céu vazio, o mesmo céu azul que dias atrás estava decorado por pássaros, pipas, asas deltas e pensei: “A mortandade está em toda parte, mas que merda de coisa é esta Deus?”

Eu embarquei primeiro, atraindo os dois bichos para minha direção, consegui jogá-los na água quebrando meu remo na cabeça do último que era mais resistente. Achei um arpão que utilizei como arma para explorar a embarcação antes de colocar minha família a bordo. Em nenhum momento quis trazes Gabriel para o veleiro porque cedo ou tarde ele também viraria um daqueles monstros, porém Salete com sua histeria materna exigiu de forma arbitraria para amarrar uma corda no corpo dele e içá-lo. Pobre Beatriz, ela deveria procurar um esconderijo dentro de algum compartimento ou no espaço reservado ao motor, mas ela preferiu ficar dando assistência ao sofrimento do irmão. Eu estava colocando o barco no seu curso quando ele transformou, atacando minha filhinha paralisada de medo. Agora tínhamos dois mortos-vivos amarrados em cadeiras. Eu implorei para jogá-los ao mar, infelizmente o instinto materno agiu de novo...

– Que merda de coisa é esta Deus?

Eu dei um sobressaltado com os gritos de Salete, aquela louca havia desamarrados os zumbis? A noite chegou cobrindo com sua escuridão todo derredor, tamanha eram as trevas estibordo que não sabia delinear onde terminava o oceano e começada o firmamento. Assustei-me com a grande quantidade de estrelas refletidas na maré turva, porém foram os gritos de minha esposa que me fizeram reagir. Desci ao encontro de Salete empunhando o arpão, não precisei utilizar a arma porque os dois mortos-vivos permaneciam amarrados em suas cadeiras, mas minha mulher tinha sangue nas mãos que estancava com um pano. Os monstros rosnavam sedentos, querendo sorver um pouco do liquido rubro que manchava o curativo improvisado de Salete.

– Que merda de coisa é esta Salete? Como se machucou? – Perguntei confuso.

– O Gabriel mordeu meu dedo!

– Como? Eu falei para não tocar neles?

– Eu sei, mas ele estava tão agitado. Por favor, não se livra deles. – entre choro de humilhação continuou – Ele estava agitado... Pensei que fosse uma daquelas crises de abstinência... Enrolei um cigarro com aquela coisa que estavam dentro da mochila. Eu cheguei perto e acreditei que meu filho abria a boca para segurar o cigarro entre os beiços, porém... um descuido foi suficiente para ele mastigar meu dedo indicador.

– Como você foi burra Salete! – mirei o arpão no meio da testa de Gabriel e atirei, depois gritos desesperados da mãe, o monstro ficou estático sem emitir nenhum sinal de vida. Então prossegui – estas coisas não são mais seus filhos. Gabriel foi mordido e virou um monstro, depois ele atacou Beatriz que também transformou, agora é tarde para você acreditar em mim.

– Diga Reginaldo, diga que você ainda nos ama e vai ficar com a gente.

– Eu sinto por você Salete, não se iluda! Você vai virar um deles, mas antes me faça um favor: Morra e me deixa em paz!!!

Um alívio caia sobre meus ombros, um suspiro para baixar à guarda, deixar rolar as primeiras lágrimas de remorso. Deveria ter agido sozinho como um ditador autoritário, minha família estaria me odiando em vida! Fiquei em duvida quem jogar ao mar por último porque eu estava em debito com os três. Beatriz me ensinou que precisamos de mais tempo para nos fortalecer; Gabriel (com as duas garrafas de uísque) mostrou que não vale a pena encara a viva com sobriedade, já Salete tinha razão, eu deveria primeiro velejar até Fernando de Noronha, buscar todas as possibilidades até o caminho de Cuba.

– Oh Deus eu amava minha família, eles valiam tudo na terra!

(13/10/2014)

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